terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Onde? Quando? Por quê?

Em um local talvez haja uma pequena resposta para tudo aquilo que hoje não faz sentido. Talvez lá esteja escrito que de fato há situações, pessoas, atos que não possuem sentido algum. Talvez escrevam num pequeno papel que aqueles que buscam sentido simplesmente não buscam. Mas é triste, não? Saber que não há um porquê especial? Que o fim é apenas o fim? Difícil concordar que tudo é apenas um monte de acontecimentos ao acaso? Que nada sobrenatural e mirabolante existe para regir tais variantes que variam independentemente da vontade do papa, imperador, proprietário, vampiro, gnomo, senhor feudal, gigolô?
Enquanto nada do gênero é encontrado, é notável o quão deprimente é olhar e ver seres se divertindo ao despejar "verdades" que limitam, denigrem e castram.

E enquanto isso me defino, confundindo-os, pois não eu não vim até aqui para deixar tudo fácil:

Sou uma sequência interminável de suposições. Especulações. Asneiras.
Um amontoado de matéria em deterioração.
Uma mente inconstante.
Um ser humano insaciável.

Só existo porque você existe.
Existo, pois você me imagina.
Sou um fruto da sua limitada imaginação.


(Jéssica.)

sábado, 14 de novembro de 2009

Olhos.


Docemente dançou, enquanto sem pressa passava os olhos sob cada detalhe. Gestos significavam muito, passos em falso, frases incompletas, roupa e cabelo. Tudo era digno de ser observado. Houve alguém que quis deter aqueles olhos, não pode. Longos cílios, pupila tão serena numa íris de tom escuro, um piscar sutil.
Palavras foram sussuradas sem que houvesse culpa, entretanto tal sussuro não era ouvido. A distância entre o locutor e o receptor distorceu a mensagem, ninguém de fato se conhecia. O som real não chegou, mas foi intensamente almejado.
Hoje compreensão ainda não existe. "Há mais coisas entre o céu e a Terra do que ousa imaginar nossa vã filosofia". Quisera alguém ter noção plena do seu próprio ser, saber como reagirá quando posto em prova, quando tiver que vivenciar a situação com a qual mais criou ilusões, mais esperou. Mas talvez nem queira, surpreender-se é poder manter o deslumbre, mesmo que sofrido a posteriori, de estar vivo e achar graça nesse emaranhado de variáveis que é a vida.
Bom seria se o que foi imaginado com doçura se concretizasse, mas restou peso. Angustiante sensação de que aquele olhar captou coisas além do que queira ser mostrado. A impressão de que algo sublime perdeu o ponto por um conjunto de atos involuntários, inocentes, que num primeiro instante, não tinha culpa alguma.
Ausência de culpa, esta se extinguiu com a ausência do olhar, embora deveras revelador, confundiu. Restou novamente o sussurro distorcido, ambíguo. Restou pelo menos um ser na inanição de saber de onde veio tantas consequências inimagináveis. Só uma teoria ainda prevalece: encantar-se é perder-se em utopias, por mais que elas pareçam reais. Lembrando que teorias são desfeitas e nem sempre são significativamente abrangentes. Certamente essa só tem validade para o alguém que quis deter os olhos mais livres que conheceu.
(Jéssica.)

domingo, 1 de novembro de 2009

Paz, guerra.


Da onde vem a paz? Onde surgiu a guerra? Quem inventou as indagações?
Perguntas se formam e se dissolvem com os acontecimentos e sensações. Pessoas surgem e esclarecem. Pessoas surgem e confundem. Pessoas surgem e encantam. Envoltos num amontoado de sucetivos fatos corriqueiros ou surpreendentes há pessoas a caminhar. Pensar. Driblar. Desejar. Querer. Indagar.
Não aceitar algo como verdade requer coragem, requer dúvidas, disposição para discutir e se permitir conhecer facetas desconhecidas, surreais. Permitir-se é encarar a totalidade como um grande delírio e ir desvendando cada devaneio como algo novo e incrivelmente esclarecedor. Sonhos que trazem consigo vontades, vontades que produzem taquicardias tão sublimes, lágrimas que trazem consigo soluços oprimidos pelo desconhecido.
Paz, paz descobre-se ao abraçar, naquele abraço onde cheiro e tato se misturam e no qual o silêncio é tombado pela respiração. Paz, paz descobre-se ao conversar e compartilhar algumas indagações, ao inventar indagações e buscar respostas durante a conversa, e por mais que tal questão não seja sanada, encontrar na dúvida um encantamento. Paz, paz descobre-se na ausência de resposta, quando o sim ou o não, a realidade ou o surreal coexistem não interferindo naquilo que se sente. Paz, paz simplesmente se descobre, sente, tenta expor numa sequência lógica de pensamentos.
Guerra, guerra descobre-se na imposição de ideias, na falta de descobertas, na ausência de encanto, quanto o todo se torna rotineiro, quando os calafrios são de tédio. Guerra, guerra descobre-se na preocupação, quando o sim ou o não fazem toda a diferença, quando uma ação involuntária traz consequências incoerentes, tornando as questões sufocantes.
Guerra, paz, um monte de perguntas, pessoas. Sensações mescladas de sentimento que surgem trazendo tantas questões, tanta paz, tanta guerra. Pessoas tão suscetíveis a equívocos se permitindo e ao se permitir, errando. Entretanto, no meio dessas pessoas e questões, talvez, de um modo muito singelo, num colo, descubra-se a paz e sem perceber desperta-se a guerra.
(Jéssica.)

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu-lírico.

Como eu detesto escrever em primeira pessoa. Parece tão egocêntrico, parece tão limitado, tão restrito a mim mesma. Logo eu, que se pudesse abraçaria o mundo inteiro, gosto da totalidade, por mim juntaria o belo com o feio, o divino com o obsceno, o pecador com a virgem, o cruel com o bondoso. Eu gosto dos imiscíveis juntos. Fases distintas, não se mesclam por completo, mas se tocam e até se veem obrigadas a interagir.
E daí surge um ser e grita:
- Imagina-se perante a um ser cruel sendo obrigada a estar perto dele?
E eu com toda a delicadeza intrínseca a meu ser respondo:
- O que o torna cruel? O que leva uma pessoa forçar outra a algo que ela não quer? Quem faz os cruéis? Aliás, ele ou ela não se criou sozinho.
Como estou escrevendo em primeira pessoa não vou dissertar sobre esse assunto nesse momento. Eu estou num momento "eu-lírico", quero total liberdade poética, quero agora através das palavras tirar até minhas roupas, estou num momento niilista de ser e que todos os preceitos sociais se explodam.
Vamos combinar que não há nada mais ridículo e clichê do que ser revoltadinha e pacata ao 18 anos. Paradoxo? Como minha cabeça é confusa, se bem que, minha cabeça nem é tão confusa assim, ela apenas muda de ideia com uma facilidade imensa. Para que reprimi-la? O paradoxo existe, mas é que todo momento juvenil contra a sociedade se depara com a preguiça e o medo e o conformismo e os pais e a própria sociedade.
Eu queria gritar tanta coisa e grito muita coisa. Não sou um ser muito educado. Educação em excesso me irrita profundamente, educação hoje mais parece um molde daquilo que é aceitável e daquilo que não o é. Grito, entretanto faço pouco. Doce hipocrisia juvenil, idiota sensação de incapacidade, amargura pelo choro reprimido e a vida imposta sem que a doce hipocrisia juvenil fosse saboreada.
Eu, eu, eu! Observo agora meu lindo umbigo e vejo o quão depressa as coisas se vão, o quão rápido nós jovens nos desapegamos a elas. E que bom que nós desapegamos! Não queria estar pressa a uma única coisa sendo que há outras trocentas para admirar. Sou tão egoísta. Há quem diga que sou fria, sarcástica, metida, sem noção, calculista. Pode ser, quem sabe amanhã eu não amanheça amável, carinhosa, cristã e doce? É. Entretanto eu não acredito em milagres, mas acho que tem muita gente equivocada por aí.
Muita gente! Inúmeras! E eu aqui.
Eu aqui escrevendo em primeira pessoa, dando enfâse ao meu umbigo, a minha sede, a minha revoltazinha particular.
Eu com meu "eu-lírico" que grita por mais, entretanto não tem a mínima noção de como expor si mesmo, que teme a si mesmo, que se torna tímido quando lhe pedem para falar de si mesmo, que se esconde para chorar sozinho aquilo que não é dividido muito menos entendido. Definitivamente meu "eu-lírico" adora ouvir. Alguém por aí não quer me contar alguma infâmia? Prometo estimulá-lo.
Eu odeio escrever em primeira pessoa.
(Jéssica.)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Doses que alucinam.

Fiz muita coisa.
Tantas que nem me lembro.
Não culpo nada nem ninguém,
Julgamos e temos que estar prontos,
Pois concordando ou não seremos também.

Uma noite, instantes surreias.
Lucidez? Não, jamais. Julguem-me!
Nas doses deixei-me levar,
talvez infantilidade, mas fui.
Culpar as doses seria simples. Mas foi eu.

Eu quis, pensei, não planejei.
A coragem súbita e êfemera apenas confundiu,
Confundiu não somente a mim.
Podia estar arrependida e estou,
Sou tão humanamente previsível. Desprezem-me.

Luz, passou.
Pensamentos sem conexões. Lembraças obscuras,
Histórias contadas. Chacotas.
Triste e envergonhada? Não, isso não.
Apenas uma aluna aprendendo a desfrutar,
Desfrutar dos prazeres e ressacas humanas.
(Jéssica.)

sábado, 18 de julho de 2009

Possível, porém negado.


Enquanto o tempo se esvai a morte se aconchega e com ela a tristeza de saber que simplesmente não deu tempo. Nascimento, renovação, continuidade, apenas o começo da morte. Pessoas lutam com todo seu conhecimento para driblá-la, mas não há registros de alguém que tenha conseguido tal proeza. E durante um suspiro tudo que não se pode fazer se torna uma grande decepção.
Lágrimas escorrem no rosto daquele que teve seu pedido negado, daquele que perdeu, daquele que adoeceu. Uma vida curta e repleta de sonhos possíveis se mostra incompleta para aquele que simplesmente não pode ou não o deixaram. Do que vale saber que é possível se há alguém ou algo o impedindo? Onde será que esconderam a dose de revolta?
Poder viajar o mundo, mas ser impedido pelo seu trabalho, pelo seus filhos, pela sua esposa, pela sua religião.
Poder sair, mas ser impedido pela violência.
Poder beber, mas ficar sóbrio por achar que assim se vive mais ou pelo simples fato da sua igreja condenar tal ato.
Há tantas coisas na mente humana a ser descoberta, formam-se psicólogos aos montes e as perguntas continuam, perguntas que nutrem esse desejo de querer viver mais, para ter a oportunidade de saber se há alguma verdade coerente. Nascem hoje e começam a morrer hoje mesmo e com isso as perguntas se tornam um emaranhado de situações que lhe mostram algumas teorias e outras inúmeras perguntas. Não são mais o que eram a dois minutos, a cada segundo que passa a morte se aproxima. Células morrendo, algumas nascendo até o crucial instante em que se chega ao término.
No fim não importa se ainda é belo, se tem a carne firme, os olhos perfeitos, a boca bem desenhada, se beijou, se a velhice lhe trouxe mais conhecimento ou o esquecimento, se pulou de um penhasco, se deitou-se com alguém que lhe despertou desejos, se é frustrado ou pleno. Não importa se alcançou o que desejava, não importa se teve ou não tempo suficiente, não importa se aproveitou ou não as oportunidades, não importa se o serviço foi bem feito ou não, não importa se alimentava-se, não importa quem é. Simplesmente finda.
Onde esconderam a dose de revolta? Onde? Pois a morte se aproxima, a juventude se despede, a saúde se debilita e as possibilidades são negadas.
(Jéssica.)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Filosofia da pipoca.


Milho, grãos dispostos em uma espiga. Fruto que dará origem a outro ou não.
Pode ser destinado a alimentação, que fim estéril. Mas é uma possibilidade.
Virar ração ou ser destinado para a linda e estupenda espécie pensante?
Festa junina! Receitas abundantes desse grão, na sua maioria ainda verde!
Infância, tem gosto de casa de vó! Se é que casa de vó tem gosto, mas paciência, ter licença poética está na moda. Broa de milho! Bolo de milho! Pamonha! Curral! Milho-verde cozido com manteiga! Pipoca! Pipoca! Pipoca!
Pipoca, como é intrigante. Dá para filosofar a seu respeito. Acredita? Pois é a mais pura verdade.
Um grão seco, já sem vida, inicialmente sem fim algum, mas basta apenas um simplório gesto. Aquecê-lo. Doar um pouco de calor. Nada mais que isso. Tão simples e tão satisfatório. Aquele grãozinho ao ser aquecido se rebela para o mundo. Estoura sua cápsula e doa o que tem de mais gostoso e macio. Agrada o paladar. Doce ou salgado? Vamos escolha! Você tem esse livre arbítrio.
Filosofia nisso? Claro. Óbvio.
Secos pelo tempo, tempo arrogante e metido, soberano. Que a quântica trate de controlá-lo logo. Aos poucos a maciez se esvai e só sobra um ser distante, preso num mundo severo e apertado, sufocador.
Só que é tão simples, tão infantil mostrar-lhe algo singelo, doe carinho e respeito, estimule, desperte desejos. Após atos como este algo diferente irá se mostrar ao mundo, certamente muito mais apetitoso e comestível. Comestível sim! Uma deliciosa maciez e suavidade, por mais que algumas lasquinhas da casca fique no dente, é sublime. Muito bom!
Uma metáfora um tanto quanto boba? Talvez.
Mas é simples assim.
(Jéssica.)

terça-feira, 30 de junho de 2009

Espécie.

Ontem, uma espécie. Como aquele ser era capaz de tamanhas contradições.
Olhava sem interesse para um horizonte pálido, sem graça, sonso.
Se era capaz de sonhar, como podia ser tão ausente?
Um gato desviou o olhar ao olhar seus olhos.
Um mendigo pediu algo, mas logo arrependeu-se.
Uma flor radiava seu vermelho, mas a criatura pisou em cima de suas pétalas.
Torceu o nariz ao odor, mas ignora os aromas.
Como é bom o cheiro de quentão em plena páscoa ou então o cheiro irritante do café ao amanhecer!
Cantava "viva a liberdade", mas não se permitia amar.
Lutava por uma causa, mas não sabia se tinha motivos individuais para aquilo.
Chorava, mas não soluçava, não se depatia, não gritava.
Hoje, a mesma espécie. Ainda contraditória, talvez um pouco amarga, talvez um pouco mais evoluída, talvez um pouco mais arrogante, talvez ainda mais desconhecida.
Ainda não conseguiu aquele amável olhar.
Ainda não é compreensível.
Ainda não é sensível.
Ainda não é consciente.
Ainda não é presente.
Mas talvez aquela espécie que tanto chama a atenção seja apenas um reflexo, uma imagem deturpada, tão distorcida, tão confusa, de algo simplório.
Hoje, novamente aquela espécie. Surpresas.
Olhava com fervor um horizonte ainda pálido, sem graça, sonso.
Ainda surdo, mas somente àquilo que não concordava, àquilo que ia contra a sua natureza, seu instinto.
Saturado de cobiças e ânsias, um fervor explícito, uma loucura instintiva.
Amará, ama, amou, permite-se, doa-se, voa.
Espécie, tantos exemplares. Maioria tão incorente. Tão sem lógica. Tão deturpada. Tão sofrida.
Tantas exceções, tantas audácias, luxúrias e medos, repressões e entregas.
Homo sapiens, ser humano, eu.
Apenas nós.
(Jéssica.)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Apenas eu.

Suporte-me apenas o quanto puder.
Ame-me enquanto eu satisfacê-lo.
Ignore-me se assim julgar necessário.
Seu mundo não gira em volta do meu.
Eu não giro a sua volta.
Somos sós. Um par ou uma orgia solitária.
Assim que é. Somos limitados.
Impor mais limitações é sufocante.
Eu o amo. Mas eu estou só.
(Jéssica.)

domingo, 31 de maio de 2009

Razão do meu viver.

No sonho daquele menino aconteceu coisas que ele não compreendeu. Havia tantos fatos que sua mente não conseguia absorver, entretanto ele não apagou de sua mente nem um segundo daquela noite imaginária.
Quando chegara em casa no dia anterior estava tudo como devia estar. Não havia ninguém, seus pais estavam trabalhando e naquele dia a moça que faxinava não tinha ido, certamente era sua folga. Tinha vários trabalhos escolares para serem feitos. Entrou em seu quarto e começou a realizá-los, era sempre muito caprichoso com suas coisas, escola ou notas nunca foi problema. Pegou alguma coisa para comer na geladeira e foi para seu quarto.
Era um menino só. Não tinha irmãos. Pai e mãe sempre trabalhando, tudo que eles conseguiam com o trabalho, diziam que era para seu filho, a razão da vida deles. O menino só que estudava quieto no quarto era a razão da vida de duas pessoas. Carregará isso consigo pela eternidade.
A tarde passou suavemente, nem se deu conta das horas, elas não faziam muito sentido mesmo. Ouviu a porta da sala se abrir, eram seus pais. Mas continuou em seu quarto, ia descer depois, estava deitado em sua cama, era merecedor de um descanso, havia passado a tarde lendo, resolvendo exercícios, escrevendo. Os professores estavam inspirados naquele semestre.
Ouvia uma música bem agitada para relaxar, mas mesmo com o volume relativamente alto deu para ouvir uma discussão. Mais uma vez teria que presenciar aquela patética ladainha de sempre.
Seu pai reclamava do cansaço, culpava sua mãe por coisas que muitas vezes ela não tinha nem a mínima noção do que se tratava, reclamava da bagunça, do ar, da vida.
Sua mãe pedia por mais atenção, por mais calma, por mais diálogo, suplicava por um olhar, sofria por não ser notada, trabalhava tanto quanto seu marido, sempre o ajudou, abdicou de tanta coisa pela sua família, mas sofria por aqueles momentos incompreensíveis. Não dava para ela entender o porquê da casa de sua família se transformar num local tão desagradável, com aquele clima tão severo e sufocante. Chorou.
O menino já conhecia aquela história de outros carnavais. Amava seus pais. Eles sempre fizeram de um tudo para criá-lo da melhor maneira possível, se erraram foi tentando acertar e ele compreendia isso com perfeição. Só desejava que seus pais olhassem um pouco para os lados, observassem que nada que eles faziam valia a pena se eles não estivessem bem. Era aquele o sonho que eles realizaram? Aquilo era a família que eles queriam? O que eles estavam fazendo?
Dormiu no embalo de uma discussão.
A noite estava incrivelmente agradável, fresca. O sono era inevitável, mesmo naquela situação. Cobriu-se e abraçou um travesseiro.
Não demorou muito estava numa cidade. Parecia mais velho. Bem mais velho, no mínimo uns 15 anos havia se passado. Abria a porta de uma casa simples. Vestia o uniforme de uma indústria de calçados. Ao entrar na casa uma mulher lhe dava um beijo e um abraço e o perguntava se no trabalho havia corrido tudo bem. Ficou quieto. A mulher não quis forçar uma comunicação, parecia que já estava acostumada com aquela reação. Ele baixou a cabeça e ficou sem entender tudo aquilo. Andou pela casa. Viu um berço, assustou-se ainda mais. Havia uma pequena menina lá dentro, ela sorriu quando o viu. O tempo no sonho corria. A noite havia passado e o dia já havia chegado. Involuntariamente foi até a fábrica. Trabalhou, no fim do dia recebeu a notícia que o salário atrasaria. Foi embora. Chegou em casa novamente, dessa vez a mulher não lhe pareceu tão receptiva. Mostrou-lhe contas e falou que o que ela ganhava não era o suficiente, chorou, parecia que sem querer. Sua voz ficou sussurrada, falava enquanto algumas lágrimas incontroláveis caia que não entendia o que estava havendo com eles, queria entender por que ele não conversava com ela, disse que o ajudaria, casaram para compartilhar não para culpar ou apontar erros, mas que tudo o que haviam planejado parecia cada vez mais distante. Tentou pronunciar alguma coisa para confortá-la, mas antes que isso fosse possível escutou um choro de criança, foi até ela. Com a criança no colo olhou para traz, viu a mulher sentada como se nada daquilo que ela estava vivendo era coerente com seus planos. Olhou para a pequena menina e viu nela a razão da vida de ambos, dele e daquela mulher. Era como se olhasse para aquele pequeno ser como seus pais olhavam para ele. Deitou a menina e foi até a mulher, quando a abraçou, ele acordou.
Colocou a mão sobre a sua cabeça. Foi tão nítido. Abriu os olhos e viu que o sol ainda não havia se mostrado. Sentou na cama. Procurava paz, procurava sossego na sua mente, não encontrava. Tudo, tudo era muito intrigante.
Foi até a cozinha e lá ficou sentado, olhando e tentado achar coerência naquilo. Eram 3 horas. Não se importou. Aquele sonho foi o reflexo da vida de seus pais, era a continuação de tudo na sua própria história. Tudo o que ele um dia imaginou para seu futuro, nada estava no sonho, mas o sonho parecia ser o seu futuro. Era tudo tão previsível que ficou triste, não queria aquilo, aquilo não era seu objetivo de vida, talvez aquele objetivo de vida não era o de ninguém, mas a frustração daqueles personagens o atordoavam. Aquela mulher sofria como a sua mãe. As horas passavam. Sua mãe chegou na cozinha para preparar o café.
Pulou de susto quando o viu. Viu que ele chorava. Sentou ao seu lado e perguntou o que estava sentido, se estava passando mal. Ele falou que não queria ser única razão para a vida dela, falou que o seu sofrimento respingava nele, naquela casa, no seu pai, falou que se sentia mal por não ter o poder de fazê-los felizes, a vida nem sempre é família, há o individual, o prazer único, disse aos prantos que ninguém é a vida de ninguém, ninguém pode viver por ninguém, pois não há continuidade, pessoas são finitas e que colocar sobre os ombros de um filho a razão do seu viver era podá-lo e impedir a si mesmo de correr atrás do que lhe faz bem.
Ao terminar seu desabafo viu que seu pai estava escutando o que falava. Sentaram os três. Choraram os três. Enxergaram-se. Calaram.
(Jéssica.)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sem fim.


Um instante!
Parem. Beijem o chão. Peçam mais. Supliquem.
Cantem por um amor. Delirem com seus corpos. Ou com os dos outros.
Busquem por algo que não compreendam. Cansem.
Peço apenas que se enxerguem, não é difícil, tentem. Não se esqueçam, por favor, que tudo é apenas fruto da sua imaginação.
Olhem para parede, vejam como ela é estática. Analisem o que veem. O universo é fantástico. Eu diria até que não acredito nele. Você acredita? Você está sobre um planeta, que gira em torno de um troço bem grande e quente que chamamos de sol, o sol é uma estrela assim como outras trocentas existentes, e tudo isso está disposto. Surgiu do nada ou sempre existiu?
Estudem ciência, religião, história. Delirem com o desvendar de uma sequência. Tentem encontrar uma lógica em tudo ou em algo. Sintam-se um deus, alías foi você quem o criou (só para lembrar: tudo é fruto da sua imaginação).
Pulem. Façam uma revolução. Saiam gritando "aí" com a mão bumbum. Revoluções anarquistas estão modinhas demais. Formem uma turma incomum, criem uma ideologia: QUEREMOS SAIR CORRENDO PELADOS! AGORA! ESSE DIREITO É NOSSO! QUEM INVENTOU O PUDOR? PARA QUE ELE SERVE? HÁ FINALIDADE NISSO TUDO?
É assim imperará no planeta Terra algo sem fim. A plena sensação de liberdade. Um frescor sublime. Tudo amanhecerá com mais calma. Será mais suave. Contínuo. O fim não existirá, pois não o imaginaremos e como tudo é fruto da nossa imaginação, ele não existirá.
(Jéssica.)

domingo, 17 de maio de 2009

Pensa, penso. Caramba, estou viajando em pensamentos!

Escrevo aqui como se nada me controlasse, deixo fluir o que se passa na minha mente tão confusa, uma mente repleta de dúvidas. De fato são dúvidas, não sou uma pessoa bem resolvida mentalmente. Aliás, pessoas bem resolvidas, com uma mente muito concreta e cheia de verdades, me irritam profundamente.
Tenho sede. Tenho fome. Quero carne. Pessoas são tão instigantes, diria até que são legais, mas quando se analisa em massa nota-se que tudo é absurdamente previsível. Mas isso não vem ao caso. É difícil agradar pessoas. É difícil respeitá-las. É difícil compreendê-las em certos pontos. Falam uma coisa, agem de maneira oposta. Querem luxúria, mas saturam o sexo de tabus e dogmas incompreensíveis. Querem contar, mas guardam para si suas infâmias. Querem correr ao mar, mas recuam para não estragar o cabelo. Querem liberdade, mas se rendem a ignorância ou ao mísero medo ou a insignificante sensação de estabilidade. Estável...
Queria sair correndo pelada, mas sou mais uma no meio de tantas e tantos que sei lá. Desejam, mas não se saciam. O que me sacia? Não sei, não me saciei ainda. Quando me saciar ou minha paciência se extinguir deixo esse mundo, digamos que, um pouco menos gostoso. Sim, menos gostoso.
Há pessoas que embelezam esse mundo de uma forma tão supimpa que eu deixo um sorriso se estampar no meu rosto quando me lembro delas, sim, eu conheço pessoas belas. Beleza é fundamental. Encanta. Deslumbra. O que é beleza? Olho a minha volta, o que me chama atenção, o que é prioridade, quais minhas preferências (preferência é bem diferente de preconceito). Tenho sorte nesse aspecto. Aliás, colocando tudo numa balança, desconsiderando a margem de erro, eu sou uma pessoa que segundo os preceitos da nossa atual sociedade deveria ser estupendamente feliz. Mas é que reclamo de barriga cheia mesmo. A minha está cheia, mas e a dos outros? Não gosto de muita coisa que vejo. Que sinto. Que ouço. Seria hipocrisia? Tenho pai e mãe, dois irmãos, roupas, casa, cama, colchão, nada no quesito material me falta. Não sou plena. O tempo me angustia, convenção maldita. Moralismo me angustia, julgamentos malditos. Regras me angustiam, limites malditos (quando a regra tende a 0, o mundo tende a liberdade de expressão, de amor, de desejos, de sonhos, mas essa função está se mostrando descontínua, onde regra = 0 é utopia). Muitas coisas ditas ilegais fazem meus olhos brilharem, ilegalidade maldita.
Assim meus pensamentos "deslizam como quiabo na boca de véia banguela", imagens se formam na minha mente, extravazo na forma de gargalhadas ou num choro solitário em um local onde eu esteja invisível aos olhos daqueles que jogam pedra como se a infeliz marginal que não merecesse respeito fosse eu. Talvez seja. Mas apontar é cômodo. Como é.
Assim as coisas se desenrolam ou se enrolam mais ainda. É. Corram. Gripe das Capivaras radioativas está ao seu lado. Búh.
(Jéssica.)


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Não sou.

Não me dei conta de como as nuvens...
Não percebi que a flor...
Não me toquei que a brisa do mar...
Não enxerguei o quão...

Quanto mais queriam me mostrar algo estupendo
Mais eu via ilusões.
Quanto mais me mostravam horrores
Mais eu via inerências.

Se me perguntar o que eu quero
Responderei: querer o que posso ter.
Infelizmente não me contento com o que posso,
Logo presa estou.

Presa! Presa de quem?
Daqueles que vivem no mundo que enxergam,
Entretanto não vejo o que eles veem. Não sou.
Metáforas me cansam. Eufemismos então...

(Jéssica.)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Loucura.

Há vontades e desejos, há dores e sofrimento, mas dentro de tudo o que há, o que deve ser admirado é aquele que conquistou a orgástica sensação da loucura. Aquele que manteve-se bêbado quando lhe reprimiram; aquele que não quis pagar para ver, viu sem pagar mesmo; aquele que não se contentou com apenas essa dimensão, quis descobrir outras.
Havia em algum local escrito a seguinte frase, de algum filósofo gente boa: "É preciso viver, não apenas existir." Viver? Existir? Viver é o ato de respirar, comer, reproduzir (tem gente que acha melhor assistir novela) e um dia morrer. Existir é simplesmente estar ali. Olha como as definições são intrigantes, elas não saciam. Uma pedra existi, mas não vive, ela existirá por muito tempo, tempo esse que vai moldá-la. O Fulano da Silva Sauro vive. Ou apenas existi? Viverá por um tempinho relativamente relativo e incerto, o tempo esse que não se responsabiliza por moldá-lo, mas apenas por destrui-lo. Destruir? "Como assim, o tempo dá condições para descobrir mais coisas, admirar mais coisas..". Só que ele é ilusório. Não se perde tempo, se perde vida. Mas o que de fato diferencia viver de existir?
A loucura é muito mais interessante, pessoas se preocupam com o formal, a loucura apenas em ser escrotamente insana. Alguns querem saber a diferença de viver e existir, outros querem saber o que leva uma mãe a matar um filho, ou então saber por que a crise atingiu a China. Alguns permanecem loucos. Perfeito, simples, indolor.
Existir é estar aqui. Viver é ter tempo. Por que complicar? Tentar buscar motivos para enfeitar algo que é belo sem frescura. Ser louco é apenas aceitar-se, com todas suas feiuras, pecados, fúria. Não aceitam a ideia que mesmo sendo lúcidos e sensatos, morreram como um louco psicopata. Não aceitam que mesmo rezando toda manhã e noite, morreram como um assassino satanista. Não aceitam que o bom, no final, termina como o mal. Terminam. Acabam. Termiraram igualitariamente. O fim é socialista. O podre e o rico vão feder.
Ser louco, saber que o amanhã não pertence a Deus, entretanto é de fato incerto, mas saber que se tem o poder de tecê-lo da maneira que quiser. Sim. Como desejar. Loucura não tem regras. Utopia? Sonho? Não, é ser apenas louco. É ter sua liberdade delimitada por apenas uma coisa, o fim do existir pelo término do viver.
(Jéssica.)

domingo, 29 de março de 2009

Anseio.


Vontades bizonhas.
Carne.
Desejos.
Não há de haver censura.
O corpo expressa vontades.
Viver é querer.
Querer o quê?
Manter-se querendo.
Há quem não queira?
Prazer.
Não tema.
É belo, até mesmo o esdrúxulo.
(Jéssica.)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Você é um número.

Se você não tomar cuidado vira um número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento - Tudo é número. Se é dos que abrem crediário, para eles você também é um número. Se tem propriedades, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem número da cadeira. É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas e Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral. Se você é comerciante, seu alvará de Localização o classifica também. Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe um número de batismo. No Registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também. Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. A minha amiga contou que no Alto do Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha com o número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pode ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados. Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica. E Deus não é número. Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao Sol. Meu número íntimo é 9. Só 8. Só 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter um número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que o amor não tem número. Ou tem?
(Clarice Lispector.)


Onde será que fica meu código de barras? Pois do jeito que as coisas estão, somos apenas mercadorias, tudo tem seu preço, tudo tem seu prazo de validade. Será que ainda somos humanos? Será que ainda temos coração? Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir venderrrrrrrrrrrrrrr? Ops...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Amizade.

Amigo. Aquela pessoa que não tem nenhum dever estabelecido. Não há o que se cobrar dele. Ele não é seu pai. Ele não é sua mãe. Não é seu irmão ou irmã. Muito menos primo, tio, padrinho, avó... Mas se cobra do pobre infeliz. Cobra-se tolerância, paciência, ternura, afeto, confiança. O que se dá em troca?
Amigo. Talvez se mude para outra dimensão, amanhã não esteja mais do seu lado. Talvez planeje algo no qual você não está incluso. Talvez simplesmente suma. Talvez você não se esqueça dele jamais.
Amigo. Ele lhe oferece algo que nem seus pais, em toda sua existência, seria capaz de um dia lhe oferecer. Seus pais não ouviria uma infâmia sua sem reprimi-lo. Um amigo certamente iria ouvir, ouvir de fato, e caso você permita ele lhe daria um afago e posteriormente um conselho ou talvez incentivá-lo na infâmia. Quem disse que não há delitos maravilhosos? Delitos que deveriam ser mais praticados.
Amigo. Alguns passam, nem deixam marcas, mas nem por isso não foram amigos. Não se lembra daquele mauricinho ou patricinha que andava contigo? Vocês se divertiam, mas por infelicidade do destino acabou mudando de colégio. Nunca mais se falaram mesmo morando na mesma cidade, talvez no mesmo bairro.
Amigo. Aquele que senta ao seu lado e mesmo você estando com uma dor de cabeça desgraçada, você acaba puxando assunto com ele. Falam sobre peripécias. Falam sobre amores. Falam sobre futilidades. Falam sobre sexo. Falam sobre demências. Falam sobre indolências. Falam sobre medos. Falam sobre o que farão amanhã. Falam sobre futuro. Falam sobre medo. Simplesmente simples. Qual a finalidade de se complicar as coisas?
Amigo. Logicamente, erra. Faz cada besteira. Magoa. Mágoas que, às vezes, não serão esquecidas. Indicam o fim. Um fim que não faz as lembranças sumirem. Nem as boas. Muito menos as ruins. Amizades que muitas vezes por ignorância é posta de lado, por ser muito mais fácil julgar do que ouvir motivos e razões. O desprezo é mais cômodo que a tentativa de compreensão. Amigos são eternos. Aqueles esquecidos não foram amigos, foram apenas colegas, conhecidos, não amigos. Amizade é a mais clara prova de amor. Amizade é muito mais do que preceitos, preconceitos, convenções. A amizade é simples. De tão simples ela não pede nada em troca. É tudo um conjunto de consequências. Pode ter um começo estabelecido: aquela festa, o primeiro dia de aula no colégio novo, a república, o puteiro, o esbarro no corredor da livraria, o cinema. Entretanto o fim? Fim não há. Não na mente de quem carrega um bom amigo. Rasga-se a certidão de casamento. Mas a gratidão por um amigo não é rasgada. São coisas tão simplórias numa realidade tão conturbada.
"Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito". Seria mais lógico guardar na memória, mas as pessoas gostam de analogias e metáforas e catacreses e anáforas e eufemismos e pleonasmos e anacolutos...Se você não sabe o que essas palavras significam, não surte. Me liga amanhã que a gente conversa e quem sabe não se tornamos amigos, hein? Se bem que é mais provável que você tenha medo de mim, mas se você tiver é porque não é uma pessoa interessante e pessoas interessantes se interessam por coisas bizarras e pessoas interessantes são raras assim como um amigo. Pense nisso.
(Jéssica.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ardência.



Pimenta nos olhos dos outros é refresco, por quê?

Fatal.

Ontem, antes de qualquer ato explícito de coragem, o menino parou e pediu o seguinte:
- Papai do céu, me ajuda na prova que vou ter hoje, a professora é gostosa, mas é um saco as provas que ela elabora. Amém.
A pequena criatura saiu para encarar com dedicação mais um dia de aula, mas um dia de sua vida. Vida esta que é uma dádiva divina.
Tinha passado a semana inteira estudando para o teste, precisava de nota e não desejava de forma alguma decepcionar sua mãe. Ela se esforça tanto para mantê-lo numa boa escola.
O momento crucial chegou! A professora com todo seu gingado e charme entrega a prova. O menino já estava abalado psicologicamente com o decote da infeliz, mas se concentrou na imensa prova de História. Tinha estudado bastante, havia lido bastante sobre o assunto a ser cobrado: Cruzadas, Inquisição, Comércio no Mediterrâneo. Uma beleza. Fez a prova com facilidade, sem nenhum constrangimento.
Ficou feliz com seu desempenho, sabia que tinha ido bem, não era um guri tão imbecil, tinha um pouquinho de conteúdo no seu vago ser. Chegou em casa, almoçou e foi deitar um pouco. Agradeceu antes:
- Papai do céu, valeu aí, mano. Graças a Deus, deu tudo certo.
O menino estudou como um condenado, mas o mérito é de deus. Sacanagem. É indignante. O menino devia chegar em casa e falar: "Meu, eu sou foda, destrui aquela prova, sou demais!" Mas não...O tempo que ele passou estudando não significa nada. Se deus não quisesse que ele fosse bem, ele não iria. A vontade de deus é fatal.
Se deus não quisesse que o pai dele e sua linda mãe o concebessem ele fatalmente não existiria, de nada adiantou o tesão que seus pais sentiam. Tesão é pecado.
O menino estudou a História, mas o que isso acrescentou a ele? O que ele queria era apenas uma nota. Quer saber, esse menino é um completo imbecil, há uma contradição com a informação acima, mas eu ratifico: menino imbecil.
A semana se passou e ele ficou sabendo de sua nota, havia ido muito bem como esperado, tirou nove e meio. A nota mais alta da sala foi a dele. A belíssima professora o elogiou. Havia ganhado o dia. Papai do céu estava sendo tão generoso com ele. Que beleza.
O fato é que não há o que dizer a mais. Ele está bem com essa realidade. O fatalismo é cômodo. Nada depende de você. Você por essa concepção é um merda. Um nada. Um imbecil que serve como peça de um jogo, onde é facilmente manipulável, onde um ser superior sabe o resultado. Perder ou ganhar não depende da sua lógica. O resultado é fatal. Simples e fácil.
TRUCO, SEIS, DESCE!!! "Poxa, descer não. Não quero ir para o inferno!"
(Jéssica.)

domingo, 25 de janeiro de 2009

"Tenho ainda coração, não aprendi a me render..."

Havia tanto a dizer, desejava soltar aqueles pensamentos e sentimentos. Mas de tão grande não conseguia. Certa vez uma lágrima escorreu. Não era uma lágrima de tristeza ou frustração. Era apenas algo que transbordou. Não se sentia mal. O amor de tão grande vazou. Vazou, mas não diminuiu. Seu fisiológico deixou transparecer algo que não sabia como dizer, algo que queria se soltar, entretanto preso o tentava manter. Tudo aquilo que sentia nunca significou dor, pesadelos, posse. Tratava-se apenas de um querer bem. Aquela lágrima não era por não tê-lo, mas por desejá-lo de uma maneira diferente do convencional, desejá-lo feliz e repleto e pleno. Só isso. Isso fazia bem. Isso faz bem. Triste é aquele que pensa que o amor traz sofrimento.
(Jéssica.)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mudar.


Eu não sinto o sol nascendo hoje
Ele continua lá
Ele vai encontrar um outro caminho
Como se eu sentasse aqui nesta miséria
Eu não acho que eu sempre verei o sol daqui
E como se eu murchasse
Todos eles olham para mim e dizem
E eles dizem
Hei, olhe para ele
Eu nunca vivi daquela maneira
Mas tudo bem eles apenas estão com medo de mudar
Quando você sente que sua vida não esta digna de ser vivida
Você tem que se levantar e dar uma olhada em volta de você e então uma olhada bem alta para o céu
E quando seus pensamentos mais profundos são quebrados
Continue sonhando, garoto, porque quando você para de sonhar é hora de morrer
É como se nós brincássemos metade do amanhã
Alguns caminhos serão trabalhados e outros caminhos nós iremos brincar
Mas eu sei que todos nos não podemos ficar aqui para sempre
Então eu quero escrever minhas palavras na face de hoje e então eles irão pintar isso
E como se eu murchasse
Todos eles olham para mim e dizem
Hei, olhe para ele e onde ele está nesses dias?
Quando a vida esta difícil você tem que mudar.
(Blind Melon-Change)

"Ops, perdi meu tempo!"

Chega a ser algo tão contraditório, olhar como querem, como sonham, como desejam, como podem no começo. Por que essa mesma empolgação não continua com o decorrer do tempo? Será que o tempo tem como objetivo apenas a destruição? Ou será que não se sabe como aproveitá-lo? O que é tempo?
Crianças não têm noção de horas, brincam como se nada tivesse um fim, como se o dia não fosse terminar, como se a noite fosse apenas um momento em que o calor do sol para com a finalidade de tirar uma soneguinha. Criança só para quando o corpo pede, quando os olhos pesam, quando o cansaço bate.
A natureza cria e o tempo se encarrega de destruir, uma planta brota, vive com a função de deixar um filho para que o tempo não seja notado, para que esse filho continue o que ela estava a fazer: embelezar o mundo com suas flores. Até parece que planta sabe que suas flores embelezam o mundo...
O começo é instigante, excitante, orgástico. O fim é aliviante ou frustrante, mas o interessante nisso tudo é a capacidade de se perder o tesão no meio do caminho. Planos, metas, objetivos, tudo traçado minuciosamente, mas que conforme as dificuldades impostas pelo tempo vão perdendo o rumo, a lógica estabelecida. E quando se dá conta, a criança não existe mais, o tempo já a destruiu, o que resta é uma mente repleta de sonhos, implorando por mais tempo, sendo que tempo ela não disponibiliza para si, para fazer renascer a criança que há, a criança que é uma fênix.
Conceito abstrato, tempo. "Tempo, o senhor da razão". "Tudo tem seu tempo". "O tempo dirá quem estava correto". "Tempo é dinheiro". Einstein ficou um dia inteiro olhando para um relógio tentando descobrir o que era tempo, até que tinha visto que havia gasto tempo demais com a questão. E a humanidade pede tempo. E o técnico de vôlei pede tempo. E a menina que sonha com uma família pede tempo. E o filho que deseja passar um final de semana com o pai pede o tempo dele, tempo que ele não tem a oferecer ou que não sabe como oferecer. Tempo para conseguir o sucesso. Tempo que passa e com ele leva desejos, desejos muitas vezes não saciados. Vontades que o tempo não permitiu. Pessoas que o tempo envelheceu. Objetos que com o tempo se empoeiram, são deixados. E ainda há a dúvida...
O que é o tempo? Seria muito metafísico?
(Jéssica.)