terça-feira, 30 de junho de 2009

Espécie.

Ontem, uma espécie. Como aquele ser era capaz de tamanhas contradições.
Olhava sem interesse para um horizonte pálido, sem graça, sonso.
Se era capaz de sonhar, como podia ser tão ausente?
Um gato desviou o olhar ao olhar seus olhos.
Um mendigo pediu algo, mas logo arrependeu-se.
Uma flor radiava seu vermelho, mas a criatura pisou em cima de suas pétalas.
Torceu o nariz ao odor, mas ignora os aromas.
Como é bom o cheiro de quentão em plena páscoa ou então o cheiro irritante do café ao amanhecer!
Cantava "viva a liberdade", mas não se permitia amar.
Lutava por uma causa, mas não sabia se tinha motivos individuais para aquilo.
Chorava, mas não soluçava, não se depatia, não gritava.
Hoje, a mesma espécie. Ainda contraditória, talvez um pouco amarga, talvez um pouco mais evoluída, talvez um pouco mais arrogante, talvez ainda mais desconhecida.
Ainda não conseguiu aquele amável olhar.
Ainda não é compreensível.
Ainda não é sensível.
Ainda não é consciente.
Ainda não é presente.
Mas talvez aquela espécie que tanto chama a atenção seja apenas um reflexo, uma imagem deturpada, tão distorcida, tão confusa, de algo simplório.
Hoje, novamente aquela espécie. Surpresas.
Olhava com fervor um horizonte ainda pálido, sem graça, sonso.
Ainda surdo, mas somente àquilo que não concordava, àquilo que ia contra a sua natureza, seu instinto.
Saturado de cobiças e ânsias, um fervor explícito, uma loucura instintiva.
Amará, ama, amou, permite-se, doa-se, voa.
Espécie, tantos exemplares. Maioria tão incorente. Tão sem lógica. Tão deturpada. Tão sofrida.
Tantas exceções, tantas audácias, luxúrias e medos, repressões e entregas.
Homo sapiens, ser humano, eu.
Apenas nós.
(Jéssica.)

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