Docemente dançou, enquanto sem pressa passava os olhos sob cada detalhe. Gestos significavam muito, passos em falso, frases incompletas, roupa e cabelo. Tudo era digno de ser observado. Houve alguém que quis deter aqueles olhos, não pode. Longos cílios, pupila tão serena numa íris de tom escuro, um piscar sutil.
Palavras foram sussuradas sem que houvesse culpa, entretanto tal sussuro não era ouvido. A distância entre o locutor e o receptor distorceu a mensagem, ninguém de fato se conhecia. O som real não chegou, mas foi intensamente almejado.
Hoje compreensão ainda não existe. "Há mais coisas entre o céu e a Terra do que ousa imaginar nossa vã filosofia". Quisera alguém ter noção plena do seu próprio ser, saber como reagirá quando posto em prova, quando tiver que vivenciar a situação com a qual mais criou ilusões, mais esperou. Mas talvez nem queira, surpreender-se é poder manter o deslumbre, mesmo que sofrido a posteriori, de estar vivo e achar graça nesse emaranhado de variáveis que é a vida.
Bom seria se o que foi imaginado com doçura se concretizasse, mas restou peso. Angustiante sensação de que aquele olhar captou coisas além do que queira ser mostrado. A impressão de que algo sublime perdeu o ponto por um conjunto de atos involuntários, inocentes, que num primeiro instante, não tinha culpa alguma.
Ausência de culpa, esta se extinguiu com a ausência do olhar, embora deveras revelador, confundiu. Restou novamente o sussurro distorcido, ambíguo. Restou pelo menos um ser na inanição de saber de onde veio tantas consequências inimagináveis. Só uma teoria ainda prevalece: encantar-se é perder-se em utopias, por mais que elas pareçam reais. Lembrando que teorias são desfeitas e nem sempre são significativamente abrangentes. Certamente essa só tem validade para o alguém que quis deter os olhos mais livres que conheceu.
(Jéssica.)
(Jéssica.)

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