domingo, 23 de dezembro de 2012

Prática X Teoria



Nunca subestimei a teoria, nunca supervalorizei a prática. Há momentos que acho que se completam, noutros concluo que se excluem.  É algo semelhante a uma adaga, corta para os dois lados, apara ou cria quinas, mas é sempre de bom tom lembrar que arestas matam. Provavelmente seja esse o grande problema de uma das navalhas mais conhecidas na ciência, a navalha de Ockham, ela deixa extremidades bem pontiagudas. Afinar verdades pode ser algo cortante, por isso gostamos tanto de colocar lantejoulas e enfeites em situações originalmente opacas.
Acho magnífico quem compreende aquilo que faz, mas o ato mecânico parece ter um ibope mais considerável. É o preço da produção em larga escala. Talvez teorizando nos aproximamos daquilo que é etéreo, daquilo que é divino (por mais que algumas heresias surjam). Contudo, a prática nos mostra aquilo que somos e não somos, nossas limitações e mazelas, nossas conquistas e invenções, ela simplesmente nos mostra o quão distante estamos do perfeito. O rendimento prático nunca se iguala ao teórico. Por mais que a Teoria da Supercordas postule onze dimensões, só vemos três, por mais que isso dependa do nosso grau de lucidez.
Hoje minha inspiração me permitiu teorizar brevemente sobre a dualidade "prática versus teoria". Espero um dia possuir uma inspiração menos leiga para filosofar sobre o yin e o yang, o bem e o mal, o Deus e o Diabo, a verdade e a mentira, a métrica e os versos livres, o comportamento do elétron, a moral e a imoralidade, o tedioso e a teofania; espero poder conciliar essa inspiração com um saber mais concreto e analítico e prático. A maravilha de escrever é poder dar corpo para algo que estava somente no campo das ideias e, assim,  talvez as palavras supracitadas tenham algum significado físico para alguma alma vivente. A maior probabilidade é que essa ladainha seja apenas um blá blá blá chato e de difícil compreensão.
Enfim, devo praticar com mais afinco a arte de teorizar. Teorizar com menos alegorias a arte de praticar. Só não quero parecer um espírito superficial querendo desligar a teoria da prática.
(Jéssica.)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Não tem desconto, é de graça.


Há uma porta estreita que muitos querem transpassar. Muitos adorariam poder alargá-la, mas esta passagem não permite reformas: é eterna e imutável, assim como quem a criou. Do lado de fora, inúmeras especulações de como é seu interior e quem ali habita ou habitará; imagens que acalentam o coração e a mente surgem. A miragem da perfeição livre da probabilidade do ressurgimento da iniquidade.
Existiu, em uma terra distante, um povo que quis alcançar a maçaneta dessa porta construindo uma gigantesca torre. Esse povo era muito obstinado, não demoraria e seriam capazes de tudo o que ousassem querer. Eles se entendiam, tinham o mesmo objetivo, falavam todos a mesma língua. Contudo a passagem não era para ser conquistada dessa forma. Eis que a Torre de Babel pariu a Babilônia e quem almeja passar pela bela porta ainda espera que quem lhes confundiu a língua também grite em alto e bom som: "Caiu! Caiu a grande Babilônia!". Quiçá, não há de demorar, toda confusão espiritual se dissipará. O angustiante é que no lado de fora da porta a confusão se diluí em um mar de fogo e enxofre e no lado de dentro em uma delicada e sublime paz.
Essa paz é surreal para meros mortais, inexplicável. A sabedoria desse mundo não é capaz de dissertar claramente sobre a paz e a vida eterna: é enfadonho e tedioso, é repleto de misticismo e alegorias. Sente-se mais à vontade para falar de tristezas e mazelas, a desgraça instiga a audiência. Há muitos medos e anseios pessoais. É difícil, é muito difícil compreender o que não se vê, o que não se toca, o que não se cheira, o que não se prova com os sentidos deturpados pela queda humana. O príncipe desse mundo faz questão da cegueira, da alienação.
Enquanto isso, lá de dentro da porta, há um clamor genuíno: "entrem, é de graça". Só que a malícia leva a incredulidade; quando a oferta é alta, o santo logo desconfia. Muitos querem atravessar a porta, mas não há alma que mereça tamanha dádiva. Nenhuma obra, nenhuma estrada, nenhuma torre, nenhuma indulgência, nenhuma invenção humana conduz a enfeitada e bela Nova Jerusalém. Bons frutos e boas obras para a tola sabedoria mundana pode não significar grande coisa sob a perspectiva divina. Paradoxos que atormentam.
"Entrem, é de graça. É dom gratuito, não está sujeito a inflação. Não há dinheiro que pague, não há mérito próprio, não há merecimento. Entrem, é de graça." A porta ainda está aberta, embora seja estreita. Talvez o mais sensato seja agir e pensar "magro", afinar nossos desejos e buscar passar por essa santa porta da graça. Mas há sensatez em um coração humano tão sujeito à falhas?
(Jéssica.)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Diário.


Um diário, tudo o que não se precisa. Escrever é obrigar-se a organizar em linhas embaralhadas um conjunto de pensamentos presos em sua mente, é simplesmente exteriorizar algo que talvez se tornasse obtuso com o passar dos anos. É comum notar uma verborragia enfadonha que costuma surgir conforme as frases vão se estruturando; tudo é jogado em uma folha de papel e você vai ficando perplexo com sua capacidade de escrever, pois é apenas uma questão de começar.
O primeiro dia do diário é tímido, se esconde os melhores fatos e os pensamentos mais instigantes com medo do que aquelas palavras podem revelar. Palavras são revelações, palavras são ferramentas que desafogam a memória, palavras são desejos ou repúdios, ficção ou biografia, palavras podem ser nada, palavras é um vácuo quântico prontinho para desencadear o surgimento de um novo universo (um novo verso). Há palavras inspiradas por Deus, revelações metafísicas que se tornam compreensíveis através de narrativas, história de grandes mártires, parábolas proferidas pelo Filho Unigênito.
Um diário que destrinche o que é o amor seria algo épico e catastrófico. Um diário que em um dia do ano aborde sobre os amores velados que nunca serão revelados, noutro dia sobre os amores perfeitos que invalidam o amor real, noutro sobre os amores que se escondem usando a máscara da amizade, noutro sobre o amor platônico que teme a realidade e, quiçá, sobre os amores que se consumam e se consomem com o passar do tempo. Comparações sobre as diversas facetas do que se chama amor, o amor com finalidades carnais e procriativas. Esse diário está em falta no mercado, quem o possui deveria compartilhá-lo com os colegas humanóides; quem viveu amores ou encontrou apenas um grande amor poderia escrever sobre, mas isso é tudo o que não se precisa.
Um diário é algo muito intimista e está desvalorizado no atual contexto socioeconômico. Os grandes acontecimentos rotineiros não são dignos de nota e todo pensamento se esvai com uma rapidez doentia. Muitos levam a sério o que é temporário e fútil, poucos se aprofundam naquilo que na realidade "não precisa", não é de suma importância. "Não precisa disto, não precisa daquilo, abstrai esse sentimento, racionalize água, não seja abrangente, seja especifico, seja sucinto, seja direto."
Deixar a divagação de lado é assassinar o diário. Diário é monólogo e quanto mais rico for esse bate-papo do eu e eu-mesmo, mais os diários deixarão de ser desnecessários e se tornarão um afago à alma, um carinho sincero a si mesmo, uma masturbação intelectual com direito a clímax.
(Jéssica.)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Criatura + Criador = Homogeneidade?


Esconder-me-ei atrás de um personagem distinto de mim, em nada semelhante. Irei criá-lo em outro tempo, com outra perspectiva, discernimento e sonhos. Um andarilho sem rumo, um pensador sem fundamento, um leviano por essência, um desnaturado por convicção, um imoral por ignorância, um ilegal por escolha.
O pobre infeliz hoje se encontra preso, enclausurado em um cubículo; um leviano que não levita, um desnaturado que clama seu retorno à natureza, um imoral que se julga em erro, um ilegal querendo liberdade. O sufoco entre quatro paredes mudou meu protagonista, a mudança não se processa espontaneamente, essa só se dá quando o desespero em sua forma mais genuína bate à porta. A inércia, vez ou outra, é surpreendida com a necessidade revolução. Acelerar ou brecar uma alteração em como se encara os vislumbres da realidade não é algo trivial. É barbárie em alto nível, não pede permissão e, como um tornado, desestrutura toda um sistema de crenças há tempos imutáveis.
O roteiro que rege o destino de um personagem só cabe ao seu criador. Ele sabe o final da história, ele pode alterá-lo, melhorá-lo ou até mesmo, em um súbito estado de ira, sucumbir com essa narrativa infame que já não mais lhe agrada. Eu, como criadora deste personagem, não sei o que fazer, talvez posso tornar os acontecimentos mais interessantes se colocá-lo em um grande conflito interno, já que externo a ele só há limites, paredes. Contudo a cena da criatura batendo a cabeça no chão me parece tão poética, em sua mente há um grandíssimo nada e como já balbuciaram em outro momento: "cabeça vazia é oficina do diabo". A parte abençoada é que faltam ferramentas nessa oficina. Eu, como uma benevolente mente criativa, não quis deixar o mal brincar em minha história, mas esqueci de me atentar ao fato que o mal é intruso: nada nem ninguém o cria. O mal é oriundo de uma maracutaia que não tem autor.
No fim, meu personagem que não era para ser minha imagem e semelhança ficou igualzinho a mim, converso com ele face a face, sem intermediários, ele interfere em mim e assim eu interfiro nele. O criador sem criatura deixa de ser criador (pelo menos os criadores mortais e falíveis), assim como o efeito sem a causa ou pecador sem o pecado. Se eu e meu eu-lírico caímos na ladainha da maldade, não sei dizer, ainda não escrevi essa parte da história; não sou uma criadora onisciente. A narrativa se tornou o inverso e controverso e desconexo conto da criação descompromissada, fruto de uma mente fluídica que não parou para pesar os prós e contras, fruto de uma criadora imperfeita que se misturou deliberadamente a sua criação.
(Jéssica.)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A finalidade do fim.


"No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne" [1], contudo a carne à terra retorna, "pois tu és pó e ao pó hás de voltar" [2]. A carne entrará em putrefação: é o fim. O que se pode dizer sobre o fim sem que soe herético em demasia, o que se conclui do fim das coisas?
"Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio" [3], somente na perda tem-se completa consciência do valor do que se tinha, somente com a morte as boas obras e o caráter são elevados até onde deveriam estar quando aquela pessoa querida nesse mundo se achava. O paradoxo da existência, a dislexia humana em enxergar o belo com a ausência do horrendo, em compreender a eternidade sendo essa existência tão finita aos olhos demasiadamente humanos. Para se ter ciência do bem e do mal o homem torna-se escravo do antagonismo: duas estradas, dois caminhos, mas sabe-se que somente um trajeto é o correto e que o livre-arbítrio é exclusivamente seu.
O certo e o errado juntamente com a capacidade imaginativa ou intelectual ou depravada ou genuinamente boa do homem torna a escolha subjetiva e a verdade relativa? Seria o meio-termo digno? Talvez um pouco de coragem e tempo a mais e quiçá seria possível desbravar uma nova estrada, um outro caminho. A autenticidade transgride a Lei, pois parece que querer ocupar um local que não foi dado como opção é a origem da iniquidade, parece que querer ir além é o pecado. Aliás, o homem jamais teve problemas, ele somente tem pecados e as consequências destes.
Felizes são aqueles cuja cegueira foi curada, uma vez que, de nada adianta acender a luz para um cego; "felizes os que não viram, mas mesmo assim creram" [4]. Que "coisas parecidas com escamas" [5] caíam dos olhos de quem quer ver, que a luz que adentrar livremente sua retina torne seu discernimento entre o que é certo ou o que é errado mais lógico e simplório. Que o fim das coisas seja muito mais belo que o surgimento das mesmas ou que o fim seja simplesmente uma conclusão irrevogável, o término em sua essência. Contudo, seria a finalidade do fim um recomeço? Será que dos escombros de uma destruição algo mais digno pode ser construído? Se toda causa tem um efeito, o fim tem uma causa ou o fim é o efeito? "É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão" [6] e não seria diferente com o fim.
(Jéssica.)

P.S.: Esse texto não foi elaborado com o intuito de mistificar ou desmistificar, confundir ou solucionar, deturpar ou dar novo significado aos versículos bíblicos citados (na ordem em que aparecem temos: Jo 1,1.14; Gn 3,19; Ec 7,8; Jo 20,29; At 9,18; Ec 1,2). Ele foi criado para estruturar um pensamento bastante desestruturado, para dar um raciocínio lógico aquilo que não está sob a jurisprudência da lógica. Questões de fé me intrigam.

sábado, 9 de junho de 2012

O que se foi, volta?



Disseram que para construir um bom texto bastava ser o suficientemente impactante na primeira oração. Prender o leitor pelas entranhas, fazer com que ele se identifique com o causo a ser narrado. Best-sellers surgem daí: nas entranhas de muita gente há muita fantasia. Analogamente, para se ter uma boa vida basta fazer da sua infância algo realmente muitíssimo interessante. Se a sua infância ocorrer em um cenário bastante bucólico é até melhor, dá um ar todo mimoso e meigo, mas vale salientar que os acontecimentos e peripécias desta época devem fugir do monótono.
Época santa, tudo é bonito e os pequenos detalhes são tão grandes e dignos de nota. Nada passa despercebido aos olhinhos atentos e sedentos por mais e mais. É a simplicidade que leva ao conceito de beleza; o encantamento é simplório e puro de preceitos e isso é ser criança.
O tempo vem, envelhece a criança, faz dela um adulto e, finalmente, deturpa sua visão. Tudo complica, tudo degrada, tudo destrói. Há alguma criança que com sua inocência tenha vencido a crueldade do tempo? Caso esse serzinho exista, ela é invejável e maravilhosamente surpreendente. Pequeninos buscam pela verdade com um fervor tão leviano, eles ainda não possuem a redoma da dúvida. Seria o ceticismo o mal do século ou o remédio para todos os males? Remédios em altas doses possuem péssimos efeitos colaterais. A dúvida em excesso impossibilita  aceitar qualquer resposta. Tudo é encruzilhada. Tudo é sufoco. Tudo é pesado, logo, o cansaço vem a reboque.
Best-sellers fantasiosos vendem porque todos querem a supremacia do imaginário quando a lucidez e o cientificismo saturam, quando os questionamentos ao invés de impulsionar, estagna. Cessa o encantamento; o que um dia foi simples, hoje requer que se pense duas vezes antes de qualquer atitude precipitada. Até que se precipite, até que aquele que um dia foi pirralho se precipite na eternidade, na efemeridade, na brevidade ou sei lá o que se esperar do "além-mar". Ainda há dúvidas, mas "sobre todas as questões prematuras, há sempre respostas contraditórias". O difícil é esperar a questão amadurecer, cair do pé e enfim se deliciar com a resposta.
(Jéssica.)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Cigano.


Um dia serei cigano. Amplo, livre, envolvente. Estarei aqui e acolá. Ocuparei espaços imensos. Despertarei os amores mais carnais. Minha pele te fará chorar e eu flutuarei como uma pena. Como uma brisa boa levantarei seu vestido rodado e tocarei os átomos mais velados da sua pessoa. Se for presentear, minhas dádivas não terão embrulho. Nu e cru.
Não haverá motivos para vergonha e, em algum instante, farei de você um sem-vergonha também. Cometerei injúrias sem grandes maldades, delitos leves. Sem assassinatos, a única coisa que matarei são anseios. Irei direto ao ponto, sucinto e doce. Doce, mas nem um pouco enjoativo. Impossível enjoar do que é genuinamente bom, daquilo que não se vale de enfeites para ludibriar. Serei digno, não serei correto, não serei errado, não serei meio-termo.
Não sei o que você será, serei ignorante neste ponto. Ciganos não possuem sapiência infinita, não possuem raízes, só possuem a si mesmo. Não haverá egocentrismo, não serei egoísta, darei o que puder, o que eu quiser dar. Todas as narrativas que protagonizarei serão instigantes o suficiente para te levar até o final. Numa dança de fim de festa nada ocorrerá, mas saberei permitir que o tempo flua. Criarei uma amizade serena com o tempo, a poeira e as rugas que ele irá trazer me farão mais charmoso, mais calmo, mais agradável e mais livre. Se a saúde não me acompanhar, você irá se propor a cuidar de mim.
E assim, ao necessitar de seus cuidados, talvez eu me lembre que sua raiz me amarrou ao seu lado. Serei cigano e orquídea. A ideia de usufruir sua seiva alegrará a orquídea, mas aprisionará o cigano. O cigano morrerá sob seus cuidados. A orquídea viverá sob seus galhos. 
O cigano, deixando de viver, irá se descobrir em fim. Irá descobrir que realmente foi livre, foi amplo, foi envolvente e que foi capaz de gostar. Foi capaz de conjugar o verbo amar, foi capaz de deixar um bela flor para quem um dia também foi capaz de conjugar o verbo amar.
(Jéssica.)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Metade.


Cabe a esse fluxo contínuo de indagações fazer com que este jogo de palavras não chegue ao fim brevemente. Preciso esvair-me. Estou densa de pensamentos e desesperos e, por não saber conversar, sinto-me debilitada. Contra a parede dou alguns murros que só fazem com que a tristeza torne-se grande demais para suportar.
O sono podia durar mais, a noite estender-se, o sol ser brando, as lágrimas frias. O calor me despe, contudo me irrita, como se me privasse do contato que tanto suplico. Tenho narrado situações que protagonizo, mas estou sempre ausente. A história no fim fica sem sua personagem e todos sabem que o efeito sem a causa não existe. Um rascunho sem rabiscos, uma analogia sem contexto. Um absurdo herético.
Sinto-me sempre metade, pergunto-me como usufruir do todo que não sou capaz de alcançar. Em cada uma de minhas lamentações há tanta ausência que soa como se fosse irreal. Seria uma caridade sem benevolência, religião sem fé, ciência sem dúvida, vida sem morte.
Em meus pensamentos uma oração se sobressai: "os meus dias são sempre iguais". Este pensamento é supérfluo, o que me instiga a buscar pela minha profundeza, digamos que procurando pelo paraíso acabei por encontrar o demônio em mim. Sou uma mescla de horrores, pecado e desdém. O que quero parecer faz de mim pior do que realmente sou; sou metade e a metade que aparento ser não é a metade que de fato sou.
Tenho, há muito tempo, seguido o fluxo da correnteza apostando na lógica de que quem nada contra acaba por morrer afogado, vencido pelo cansaço. Hoje o medo ganha espaço e agora, que tive vontade de nadar um pouco, meus braços e pernas não respondem. Nunca subestimei o poder psicológico sobre meu físico, nunca subestimei o poder do tempo sobre mim. Nem ao menos sei se a metade que sou é a mesma que julgava ser. Não são minhas máscaras, são minhas ignorâncias. Se bem que uma fantasia pode fazer com que você evite a morte de alguém, uma pequena distorção mirabolante no espaço-tempo.
(Jéssica.)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Caneta? Lápis? Lápis e/ou caneta.


Hoje acordei com vontade de dissertar. Pensei nos meios de satisfazer minha vontade. Pensei numa folha de papel, lápis ou caneta. Lápis, suas marcas no papel eu posso apagar. Caneta, ainda bem que inventaram o corretivo, mas fica bem mulambento...
Bom, pensei em todas as variáveis que envolvia tal escolha. Caneta ou lápis? Caneta não permite erros. Se eu esquecer de alguma regra gramatical? Ou então, se alguma dessas regras que eu nunca consegui assimilar, como o uso da mesóclise, resolver me atormentar. Posso me perder, falar demais, ir além, misturar o imiscível e sem querer deixar meu texto sem nexo. Seria heresia em demasia da minha parte, uma boa dissertação tem que ser compreendida em sua plenitude; creio que a ficção e as minhas fantasias devem ficar em alguma narrativa descompromissada com a verdade, qual verdade não vem ao caso.
No meu ver, um texto deve ser bem escrito, aliás, pessoas que possuem um certo poder sobre as palavras me instigam, elas costumam se fazer ouvir ou ler. Eu, pelo menos hoje, não almejo nada muito abrangente, apenas acordei com vontade de escrever.
Sempre que pego uma folha de papel e lápis ou caneta me surgem assuntos sobre a minha pessoa. Isso já é o bastante para me irritar. Já imponho uma condição ao texto: não será em primeira pessoa.
E eis que algo ocorre: a vontade insuportável de generalizar. Buscar um assunto e nele encontrar um padrão e finalmente criar uma teoria que generalize tudo de um modo excepcional.
Mas será que eu terei que criar um modelo ideal e, no decorrer do texto, ir moldando-o de modo a me aproximar do real? Não tenho a mínima ideia de como começar o modelo ideal. Aliás, antes que comece a dissertar, modelo de que pretendo criar? Nesse modelo poderia inserir inúmeras condições para chegar a uma teoria satisfatória sobre o que bem quisesse. Poderia usar um pouco do ricor analítico. Ler filófosos analíticos, Russell seria um bom começo. Ou então algo mais apropriado para o meu atual contexto: Química Analítica Qualitativa e Quantitativa - Vogel. Mas voltando a dúvida inicial que ainda não respondi: caneta ou lápis?
Deixe-me curtir o fervor da dúvida! Eu, até hoje, não corri dela.
(Jéssica.)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sinapses.

O traço não diz ao certo onde se deseja chegar. Nas curvas de cada letra a canção fluía sorrateiramente. O limite se torna tão sutil, um nada, um absoluto vazio transponível. Em cada oração composta: uma melodia. As notas musicais se transmutavam em aromas doces com um quê de cítrico, o cheiro vencia a distância. Sensações subjetivas, lembranças longínquas que fazem o rotineiro menos tedioso.
As vivências irão para o túmulo, aqueles instantes excêntricos que acrescentam conhecimento seja ele espiritual ou não. Instantes que provam que o amor existe e que está sujeito a erros. Somente a morte é capaz de levá-la embora, nem a Alzheimer é capaz de privar uma certa recordação. São sinapses eternas, ligações nervosas absolutamente irreversíveis. O tempo não cura, apenas muda.
Sabor de fruta doce e madura, o suco escorre já que as mãos apertam. Hidratante natural. Os vegans aprovam, mas a carne suplica: "coma-me", é a natureza. Um mamão tenro que sequer foi devidamente saboreado. Um desperdício.
A correlação entre as lembranças transforma-se em um ciclo vicioso. Uma coisa leva a outra, nada desconexo mas nem tudo está agregado como deveria. O que está livre é mais honesto e inspira confiança. É algo entre a dor e o pecado, excitante o suficiente para que o 'ai' não seja pronunciado; não pertence a uma categoria do saber, movimenta-se.
(Jéssica.)