segunda-feira, 30 de julho de 2012

Diário.


Um diário, tudo o que não se precisa. Escrever é obrigar-se a organizar em linhas embaralhadas um conjunto de pensamentos presos em sua mente, é simplesmente exteriorizar algo que talvez se tornasse obtuso com o passar dos anos. É comum notar uma verborragia enfadonha que costuma surgir conforme as frases vão se estruturando; tudo é jogado em uma folha de papel e você vai ficando perplexo com sua capacidade de escrever, pois é apenas uma questão de começar.
O primeiro dia do diário é tímido, se esconde os melhores fatos e os pensamentos mais instigantes com medo do que aquelas palavras podem revelar. Palavras são revelações, palavras são ferramentas que desafogam a memória, palavras são desejos ou repúdios, ficção ou biografia, palavras podem ser nada, palavras é um vácuo quântico prontinho para desencadear o surgimento de um novo universo (um novo verso). Há palavras inspiradas por Deus, revelações metafísicas que se tornam compreensíveis através de narrativas, história de grandes mártires, parábolas proferidas pelo Filho Unigênito.
Um diário que destrinche o que é o amor seria algo épico e catastrófico. Um diário que em um dia do ano aborde sobre os amores velados que nunca serão revelados, noutro dia sobre os amores perfeitos que invalidam o amor real, noutro sobre os amores que se escondem usando a máscara da amizade, noutro sobre o amor platônico que teme a realidade e, quiçá, sobre os amores que se consumam e se consomem com o passar do tempo. Comparações sobre as diversas facetas do que se chama amor, o amor com finalidades carnais e procriativas. Esse diário está em falta no mercado, quem o possui deveria compartilhá-lo com os colegas humanóides; quem viveu amores ou encontrou apenas um grande amor poderia escrever sobre, mas isso é tudo o que não se precisa.
Um diário é algo muito intimista e está desvalorizado no atual contexto socioeconômico. Os grandes acontecimentos rotineiros não são dignos de nota e todo pensamento se esvai com uma rapidez doentia. Muitos levam a sério o que é temporário e fútil, poucos se aprofundam naquilo que na realidade "não precisa", não é de suma importância. "Não precisa disto, não precisa daquilo, abstrai esse sentimento, racionalize água, não seja abrangente, seja especifico, seja sucinto, seja direto."
Deixar a divagação de lado é assassinar o diário. Diário é monólogo e quanto mais rico for esse bate-papo do eu e eu-mesmo, mais os diários deixarão de ser desnecessários e se tornarão um afago à alma, um carinho sincero a si mesmo, uma masturbação intelectual com direito a clímax.
(Jéssica.)

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