sexta-feira, 25 de maio de 2012

Cigano.


Um dia serei cigano. Amplo, livre, envolvente. Estarei aqui e acolá. Ocuparei espaços imensos. Despertarei os amores mais carnais. Minha pele te fará chorar e eu flutuarei como uma pena. Como uma brisa boa levantarei seu vestido rodado e tocarei os átomos mais velados da sua pessoa. Se for presentear, minhas dádivas não terão embrulho. Nu e cru.
Não haverá motivos para vergonha e, em algum instante, farei de você um sem-vergonha também. Cometerei injúrias sem grandes maldades, delitos leves. Sem assassinatos, a única coisa que matarei são anseios. Irei direto ao ponto, sucinto e doce. Doce, mas nem um pouco enjoativo. Impossível enjoar do que é genuinamente bom, daquilo que não se vale de enfeites para ludibriar. Serei digno, não serei correto, não serei errado, não serei meio-termo.
Não sei o que você será, serei ignorante neste ponto. Ciganos não possuem sapiência infinita, não possuem raízes, só possuem a si mesmo. Não haverá egocentrismo, não serei egoísta, darei o que puder, o que eu quiser dar. Todas as narrativas que protagonizarei serão instigantes o suficiente para te levar até o final. Numa dança de fim de festa nada ocorrerá, mas saberei permitir que o tempo flua. Criarei uma amizade serena com o tempo, a poeira e as rugas que ele irá trazer me farão mais charmoso, mais calmo, mais agradável e mais livre. Se a saúde não me acompanhar, você irá se propor a cuidar de mim.
E assim, ao necessitar de seus cuidados, talvez eu me lembre que sua raiz me amarrou ao seu lado. Serei cigano e orquídea. A ideia de usufruir sua seiva alegrará a orquídea, mas aprisionará o cigano. O cigano morrerá sob seus cuidados. A orquídea viverá sob seus galhos. 
O cigano, deixando de viver, irá se descobrir em fim. Irá descobrir que realmente foi livre, foi amplo, foi envolvente e que foi capaz de gostar. Foi capaz de conjugar o verbo amar, foi capaz de deixar um bela flor para quem um dia também foi capaz de conjugar o verbo amar.
(Jéssica.)

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