domingo, 18 de dezembro de 2011

Conversa fiada.


Vou conhecê-lo em um trem a caminho do seu destino, não me manifestarei, mas você com toda sua petulância vai me dar o "oi" mais empolgado que já pude ouvir. Não vou me fazer de rogada, responderei a altura. A sequência mais lógica para um possível diálogo: "tudo bem, rapaz?". A surpresa de um silêncio sorridente me espantará, mas os espantos não me causarão náuseas, apenas sentirei algumas borboletas coloridas em meu estômago fazendo cócegas. Eu saberei diferenciar borboletas de lombrigas. Todos sabem, faz parte daquele leque de informações que já nascemos sabendo. O trivial e o inerente.
Épico e sutil ao mesmo tempo. Discreto, você vai parar de ler seu livro e se sentará do meu lado. Nomes e endereços são tão patéticos. Para se conversar com alguém não há necessidade de se conhecer sua identidade, basta compartilhar o mesmo idioma. Tão pouco há necessidade da verdade nua e crua, a imaginação é a essência do fictício, do romântico, do perfeito, dos anseios e dos fetiches. Conversar sobre fatos fica sobre tutela dos jornalistas e cientistas, no diálogo qualquer invenção é válida, toda suposição pode ser destrinchada em algo ainda maior. Nessa narrativa não usaremos a navalha de Ockham. Não iremos perceber quando entrarmos em um emaranhado, nossa narrativa se alongará e dilatará.
No mundo espiritual colocaremos modelos científicos, iremos gargalhar de nossa capacidade de distorcer e mistificar ainda mais conceitos como reencarnação, sonhos, vida e morte. No mundo material colocaremos magia, o que nos encanta, o que não sabemos, o que nunca saberemos, a brevidade dos idos e vindos, tudo isso dentro do trem a caminho do seu destino. Seu destino será longínquo o bastante para que nossas percepções sejam suficientemente incrementadas com pitadas de conhecimento sem propósito. Aquilo que só diz respeito a nós e, quem sabe um dia, venha a se tornar um livro que será interpretado de forma excêntrica gerando um outro tipo de conhecimento que não dirá respeito aos autores, a nós.
O que dirão do nosso diálogo enfadonho não nos cabe. O maquinista não se dará conta do que ocorrerá, nem deveria. Terá poesia, eu sei que terá música também. Aquilo que é sorumbático também terá seu espaço, angustias inventadas, tristezas verídicas.
O trem descarrilará, você aprenderá a conviver com aquela visão epicurista de que enquanto somos a morte não há e, quando ela passa a existir, nós é quem deixamos de existir. Deixarei de existir e seu destino não me terá, mas seu passado, quiçá.
(Jéssica.)


"Oh, you're very charming sir
Now here's to you
I don't want to know your name
Or what you do
I know, here's to strangers on a train
Strangers on a train."
(Está é uma simples citação musical: Strangers on a Train - Lovage).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Há calor na chuva.


Há calor na chuva? Somente umidade? Lágrimas dos santos solitários e prisioneiros do amor infinito de deus? Talvez seja apenas as leis do universo regidas em um cântico repleto de lamúrias, um conto erótico sem a menor poesia e descrição do ambiente, um tira e põe sem aquele tremor característico e as clássicas juras de eternidade. A supremacia do enfadonho e tedioso reinando sobre fetiches pecaminosos.
O sangue coagulado na garganta dá ânsia de vômito, a marca demonstrando uma vida sexual ativa. O anel no dedo indica uma exclusividade tão tosca. O individualismo sendo refletido na face de um outro ser aleatório escolhido no meio da multidão através de alguns quesitos básicos e já bem manjados. O estático ganha força.  Na multidão há sempre alguém melhor, por mais criteriosa que seja a seleção.
O efeito do MDMA é tentador, a sede é mera consequência, a chuva molha os alucinados e os fanáticos igualmente. Sem distinção; a chuva é subversiva e, certamente, como boa comunista, sabe que a religião é o ópio casto da humanidade. Em matéria de umidade ela se supera, mesmo sem calor. Mas há calor, pelo menos nos trópicos, um calor latente, sensível, uma capacidade calorífica que sensualiza ou vulgariza, a resultante é a mesma.
(Jéssica.)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Carta.


Há uma vontade na escrita um pouco além do deixar uma marca, registro ou qualquer coisa que o valha. A caligrafia bonita, desenhada, itálica, fina; esta não é mais essencial, basta que haja a ínfima possibilidade de ser decifrada. É arcaico, romântico, excêntrico escrever uma carta. Amizade ou amor ou censura ou filosofia, o que se pode por em alguns papéis com um cotoco de lápis, é ultrapassado. Tão longínquo isto se mostra. O quão brega pode ser receber uma carta, uma carta elaborada com esmero? Aquelas cartas que carregam o cheiro de quem a escreveu despropositalmente, sem intuito, sem malícia.
Na caixinha de correspondência somente contas, cobranças, extratos bancários, compromissos de um 'eu' falido, que depois de muito estudar para se formar naquele curso que parecia refletir seu futuro brilhante, raramente pega em uma lapiseira pelo simplório desejo de escrever umas linhas eróticas para seu alguém. Palavras são eficientes preliminares, tão valiosas, ainda mais marcantes que aquela mordida indiscreta.
Uma figura antológica são os carteiros. Percorrem a cidade inteira. Buscam endereços, números, bairros, o código postal que pode até definir quem receberá a correspondência. O meio diz muito. Carteiros se dedicam a um trabalho braçal, árduo, mas que guarda muita sabedoria. A ruela que atravessou ontem para entregar uma conta das Casas Bahia era tão estreita. Será que a cobrança corresponde a compra de um móvel grande? O caminhão deve ter passado por ali com dificuldade. Fatalmente nem deve ter pensado nessas coisas, se pensou logo tudo se esvaneceu, ossos do ofício. Mais urgente em sua mente era a necessidade de voltar para casa, abraçar seu filho recém nascido.
Os vai-e-vens das histórias que não são relatadas por quem a vive, mas por algum escritor enfadonho e malandro, mas, indubitavelmente, sábio por usufruir da experiência alheia, de ter o molejo de coordenar as palavras ao seu bel-prazer, de poder abusar da arte da lábia, da retórica, das palavras. Palavras não são mais escritas de forma única por cada ser, mas massificada. ''Tudo em Times New Roman'', o professor pede para o trabalho de pesquisa para ser entregue semana que vem. Que as forças cósmicas, que por um acaso possam reger este universo, não permitam que o e-mail assassine a carta. Aliás, que não se anulem. A tecnologia é válida, mas não é uma boa preliminar, a tecnologia pode broxar. A escrita manual penetra, erotiza, valoriza, vai com calma, aumenta o ritmo, pede mais, envolve. Com a tecnologia pode-se lançar mão de emoticons que sucumbem o desejo de acrescentar um comentário a mais; emoticons tem um quê de conversa que se finda, de escrita que se dissolve em lago raso.
Cuidado nunca é demais, tudo que se escreve em uma carta pode ser usado como prova criminal. O eufemismo pode camuflar. Tudo pode ser contornado, pode ser menos intenso. Contudo, pode ser épico. Vai do escritor. Cuidado com a caligrafia, se ela for trêmula pode indicar um psicopata com ânsia de sangue. Cautela. A escrita está além do que se pode querer mostrar. Vai do leitor.
(Jéssica.)

sábado, 16 de julho de 2011

Segredo.


Contarei ao mundo um segredo a muito escondido. É o segredo que poderá unificar a ciência. A fórmula una que responderá matematicamente os fenômenos que regem o cotidiano e o obsoleto, tudo como pede o rigor analítico. Um segredo que poderá mudar os rumos do que hoje se tem como ciência.
Não, não. Fazer isso implica em desestabilização, esmigalhar nossa sólida e impermeável fundamentação teórica, nossos contornos idealistas. Não farei isso com uma humanidade que tanto roga pelo que é estável e cômodo e entediante e certeiro. Se eu cheguei a desvendar esse segredo, outro também poderia ter desvendado. Improvável. Nosso gênios são funcionários públicos. Vivem da burocracia e para a burocracia.
Uma pena que seja assim tão óbvio, mas a maior tristeza se encontra no fato de termos perdido o tesão com o que é inerentemente trivial. "O de sempre" já não tem aquele gosto de realização pessoal; o clássico, a divisão de classes, o despropósito da igualdade. Penso cá com meus botões como seria adentrar o núcleo da descoberta total, a plenitude de se chegar aquilo que simplesmente responde. Aí se encontra o suprasumo da problemática, o segredo só responde. Não soluciona, não permite que a paz reine. Devemos concordar que o medo nos instiga, em um mundo sem guerra morreríamos de tédio. Seria como entrar em colapso. Um fato sem tragédia não é manchete.
Meu segredo não se relaciona com "o poder interior". Não é mítico. É a visão plena de nossa lógica e ciência e filosofia descrita com toda e mais bela matemática. Matrizes, integrais, séries, derivadas. A dedução no seu mais perfeito "como quis demonstrar". A sua interpretação é simples, mas isenta de ambiguidades. Revelarei para quem? Quem ouviria, há quem ouça? Peço a atenção de todos os aqui presentes. Quando eu desvendei tal segredo, fui pega de surpresa, em minha audácia pensei que seria fria o suficiente. Eu chorei. Lágrimas quentinhas rolaram e pingaram no chão. Não quero que vocês chorem. Por isso não vou contar.
(Jéssica.)

domingo, 24 de abril de 2011

Bozó.

Enquanto eles jogavam bozó do lado de fora da casa, os olhos marejados imploravam pelo toque apertado. Ansiava que talvez o calor dos corpos significasse algo além dos cinco sentidos. É a utopia daquilo que é externo e que possui a capacidade de confundir o elo entre o significante e o significado, o mundo das ideias e o mundo concreto.
Tentar ampliar o léxico de modo a suprir as necessidades urgentíssimas de uma comunicação em declive acentuado é estratosfericamente mais foderoso do que se pode imaginar. É possível justificar o silêncio pela ausência de fonemas capazes de expressar com considerável grau de pureza o que se passa. É de bom tom aceitar essa justificativa, é demasiadamente indelicado querer se afundar em terreno raso.
Alguém lá fora grita: “general”. Um vencedor se aproxima. Irá se apoderar do prêmio, do pódio, do respeito. Enquanto isso, do lado de dentro, um empurrão de alguém contra a parede vermelha, superfície áspera arranha as costas nuas, mas quem liga para a vermelhidão quando o que se busca nem nome têm. Um lampejo causado por mais um choque, dessa vez contra o interruptor, a luz irradia e se olharam. Mais um cataclismo linguístico: que nome se dá quando se olha os olhos de uma pessoa completamente nua a sua frente a ofegar calmamente em uma doce sincronia. O Aurélio diz - "tesão: desejo sexual". Há mais coisas no mundo das ideias que apenas sexo nesse momento. Ou seria apenas, de fato, macho e fêmea a procriar ou a delirar sobre os prazeres da carne. Os prazeres de se acordar com o rosto na nuca daquela pessoa, inalando seu cheiro, o longínquo vestígio de seu perfume agora misturado com outros aromas. É só sexo mesmo, não há muito o que se discutir. Contudo, para seres cuja dicotomia varia seguindo uma autofunção senoidal a dançar sobre o espaço-tempo, é complexo definir o que é bom apenas como ele o é perante os sentidos. Sentidos humanos, fadados a um broxante limite. Para que simplificar se há como complicar, enfeitar, maquiar, colocar lantejoulas.
Do lado de fora um ganhador consagrado. Risos e mais risos, regado com uma boa cerveja gelada. Levedo faz um bem tremendo ao intestino; tomar cerveja regularmente poderá salvar vidas. Mas é deveras melhor manter a lucidez "intacta", mas colabore com seu intestino, ele clama por levedo. Mas lá no interior da casa não há mais o que se descrever; transformar esse conto numa prosa erótica a essa altura do campeonato seria uma ofensa ao casal que se entrelaça enquanto seus amigos se embebedam jogando bozó. Não seria válido e digno.
(Jéssica.)

sábado, 12 de março de 2011

Alegoria da Caverna.

Era uma doce ideia
Vivia em alguma caverna a queimar
Ardia em brasa
Até que encontrou o denotativo
E tornou-se palavra.

Significante e significado são miscíveis
Mas a igualdade entre eles se perde com o pensar
Pensa o que fala ou fala o que pensa?
A recíproca nem sempre joga honestamente
Principalmente no mundo das doces ideias.
(Jéssica.)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Meu 'a posteriori'.

Sorrateiramente peço perdão pelas minhas injúrias difamadas aos sete ventos. Não sabia o que dizia, mas o dizia incansavelmente e muitas das vezes o ideal se alterou, digamos que nenhuma ideologia me prendeu por muito tempo. Não enraizei preceitos. Hoje noto que vivi a deus dará, contudo não vivi intensamente. Intensidade passou longe em boa parte dos meus dias. Raros foram os momentos em que me permitir tocar o limite e, quando o toquei, minhas pernas tremeram e alcancei o mais puro êxtase. Quando sonho enquanto não durmo tenho flashbacks desses momentos, como se tocar o extremo fosse uma droga alucinógena, onde o delírio retorna mesmo na dita lucidez.
Cantando uma música qualquer vou escrevendo essas palavras que tem como objetivo delimitar como será o ‘a posteriori’ da minha famigerada vida. Desejo com toda e a mais absoluta sinceridade que esqueçam de meu epitáfio. O dia em que nasci e o dia em que eu não mais existir não dizem nada do que pude viver, tampouco meu nome revelará algo. Não marquei uma época, não fui um gigante, não fui heroi de uma pátria, não fui célebre e, para aqueles poucos, que de mim extraíram algo de bom ou de ruim, quero apenas um ‘dar de ombros’. Fui e sou uma passagem e como tal tenho que voltar, retornarei ao pó, ao barro, ao princípio desconhecido, ou melhor, ao princípio esquecido pelos habitantes de Urântia . Que o passar de no máximo uma geração faça a minha estádia pelo mundo ser sequer lamentada. Sem um epitáfio isso ficará muito mais simples.
Nesse exato momento meu corpo pálido e esvaído clama por misericórdia. Misericórdia não das forças metafísicas, pois não tive oportunidade de senti-las em vida, mas a misericórdia daqueles que hoje me rodeiam. Não se revoltem com a minha ausência, que as lágrimas que por ventura surgirem, sequem rapidamente. Que a dança do meu funeral seja o menos melancólica possível.
Contudo, antes de pensar no caixão, pensemos nas dúvidas que podem surgir na iminência do grande momento de qualquer vida: o upa da morte. Tudo o que de minha matéria puder ser aproveitado, que seja. Doem tudo. Para mim não será mais nem um pouco necessário, se é que me entendem. Não precisarei mais de meu coração, não mais de meu pulmão. Meu fígado tão utilizado em vida não terá mais motivos para permanecer comigo (com a morte os porres se tornam um tanto quanto improváveis). Minha pele se ainda tiver tenra e passível de ser utilizada, que outro ser faça bom uso dela, quero que a toquem enquanto o calor da circulação sanguínea existir. Resumindo, almejo que no meu caixão tenha nada, e se, por um acaso do destino, sobre algo: queimem. Não creio em ressurreição e mesmo se retornar a esse mundo, que seja num corpinho diferente. A mesmice já me saturou em vida. Suplico que descartem ou deem um fim útil aquilo que não me fará falta a sete palmos do chão.
Se for necessária a minha cremação, por favor, não confundam as minhas cinzas com cocaína e cheirem. Eu não dou barato e nem potencializo o efeito da coca. Essas coisas ficam apenas para os ídolos do rock. Fui do rock’n’roll, mas não abracei a rebeldia. Uma pena, um dos meus arrependimentos. Já citei que não vivi intensamente, portanto, minhas revoluções pessoais ficaram restritas aos meus soluços discretos em algum cômodo que não abrigasse outro ser humano e as minhas reflexões eram postas em prática na minha cama enquanto o sono não vinha. Mas eis que o sono eterno veio. ZzzzZZZzzzz...
(Jéssica.)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A lua e a moça.


Qual a época em que vive a moça? Em qual época foi criança? Em qual época foi rebelde? Quando se fez ouvir? Quando desistiu do pirralho sem graça? Quando almejou o topo? Quando caiu do cavalo e viu que o sem graça era o homem da sua vida? Quando fez vinte anos? Quando deixou de ser moça? Talvez as fases da lua não fossem a metáfora mais apropriada para o momento, talvez seu ciclo menstrual nem se assemelhe ao ciclo lunar, talvez seja mais que vinte e oito dias. São trinta, mas nem um pouco regulares. Mas a moça se via totalmente maravilhada pelo brilho e a indiferença que a lua emanava, embora soubesse que a lua em si nada emana, é opaca. A lua, tão utilizada nos escritos pagãos, não brilha, e o auge da sua beleza se dá quando a lua apenas abraça plenamente a luz daquele que realmente emana, o sol. A lua apenas reflete aquilo que incide sobre ela, sobre sua superfície e, por incrível que pareça, isso não a faz menos importante. Talvez esse encantamento que ela proporciona se deva a sua capacidade de ser tão humilde a ponto de compartilhar aquilo que foi dado somente a ela.
Enquanto lua e sol pouco se interessam pela moça em questão, as marés continuam e o mar se rebela pela presença da lua. Novamente ela.
Voltar a moça supracitada seria deveras triste, pois sobre ela não há muito o que dizer. Muito mais interessante é o cantarolar dos mitos, a magia daquilo que envolve a moça e outros pelo mundo espalhados, a tecnologia e a ciência que não suprem os anseios demasiadamente humanos. Seria como se castrassem o futuro de uma prosa poética que se desenrola com o pensar distante e perplexo de um autor que talvez conheça essa moça que com tanto mistério e embromação cita e recita veementemente sua existência até que os possíveis leitores se cansem e peçam por clemência, pois não há palavras que possam segurar um leitor sem que estes achem um porquê nelas. Ilusório ou real, contudo um porquê que dê credibilidade para a ficção e/ou relato de um fato. São raros os casos em que se tem credibilidade aos vinte anos. Aos vinte anos somos rasos, profanos e nos julgamos erroneamente eternos.
O fato é que a moça fez vinte anos. É da época da negação. É da época da tragédia assistida e aplaudida. Sua geração, reza a lenda, nada acrescenta. É da época da ausência de alvo. É da época em que jovens dizem, sem saber do que ou para que ou para quem falam, que nasceram na época errada. Se sua época é a certa ou não, não há muito que se fazer, já está inclusa nela. Não foi rebelde o suficiente. O que almejar para sua época é a maior incógnita. Mas digamos que a moça com suas duas décadas de 'certidão de nascimento' os deixa por aqui. Mas fale dizer que daqui alguns dias vêm à festa que os cristãos não conseguiram deter, a remanescente manifestação pagã e carnal, o carnaval. Que a lua e a moça celebrem não o carnaval, mas aquilo que lhes parecerem instigante o suficiente.
Aos vinte e um ela voltará, fatalmente, com a mesma ladainha ou não. Rezemos.
(Jéssica.)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fuga.

Era para ser epicamente dramática e triste, mas não chegou nem perto disso. Pegou a estrada mais tranquila e saiu em disparada para a cidade mais distante que o tanque de gasolina poderia levar. Foi longe, longe o suficiente para cogitar arrependimento, contudo a velocidade e o barulho do motor afugenta o medo de maneira deveras eficiente.
Quão longe iria não era de suma importância. O que era importante de verdade era apenas ir e ficar só. E foi e adorou aquilo. Sem fotos. Sem lembranças eternas. Somente armazenando o que era impactante na mente e ali ficaria guardado enquanto a idade permitisse, enquanto o Alzheimer não chegasse. O nome da cidade, o costume daquele povo, indiferente. Eram apenas corpos no ritmo da melodia terrena, enredo, personagens e diretor, a mesma ladainha com um quê de excêntrico. Um belo quê que advinha da ausência de conhecidos, da ausência de mapas, com a ausência de destino, que advinha do total e pleno livre-arbítrio que duraria enquanto os meios financeiros que possuía durasse. 
Adorável o nascer de um novo dia, tão simpático era passar a noite em claro pensando nas consequências de tal fuga, pensamentos emoldurados com a aurora. Em meio ao peso de consciência brotava com certa intensidade planos mirabolantes de repetir a dose, a intensidade aumentou-se até que nem peso sobrou para contar história. É o vício que só é proporcionado pela ilusória, mas perfeita em sua realidade, liberdade. Metaforicamente falando seria algo perto de um dançar sem se preocupar com o ritmo, o chupar de pescoço sem se preocupar com a marca deixada, o abrir de pernas sem pensar nas doenças, é o sexo sem a pretensão de se fazer amar.
Quando voltar não era sequer lembrado no meio daquela miríade de quilômetros rodados. As placas só indicavam até onde podia ir e abominava a pista de mão-dupla, passaria ali novamente contemplando aquele caminho que não seria mais inusitado, já seria conhecido, conhecido como o local em que vivia. Era subrenatural o desvirginar daquela estrada. Belo em demasia.
A fuga foi poética e romântica, se a volta teria suas consequências dramáticas e tristes, fatalmente valeria a pena. Mas que volta? O tanque está apenas na metade. Quando acabar, aí sim, o voltar será cogitado.
(Jéssica.)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O mesmo e o não-mesmo.

A mesmice deve ser a causa-primeira da existência do tédio. O complexo nessa sutil constatação é que, reza a lenda, a vida é rara. Já dizia Lenine. Mas há mais detalhes nessa miríade de repetições, por exemplo, como identificar o isolado sem o confundir com o padrão? E como o padrão foge da uniformalidade? É deus jogando dados e rindo da cara de estupefatos da sua digníssima criação. Sem blasfêmia gratuita, isso já caiu na mesmice já faz um bom tempo, mas ainda há ateu educado em colégio Salesiano repleto de princípios cristão gritando atrocidades para evangélicos fanáticos.
Digamos que o anticristo saturou um pouco, vendeu seu peixe, arregalou os olhos de uma boa parcelinha da população, só que alguns desses santificados militantes foram cegados. É pecado julgar-se mais sábio que um evangélico homofóbico. Aliás, citar homofobia é cair na mesmice, mas sem mesmice não dá para atingir a massa. Quem não deseja tocar de alguma forma a maioria? Ser pop pode ser alucinante, pode não somente abrir portas como também pode arreganhá-las!
Foi citado duas vezes a palavra evangélico, o que pode ser perigoso aos olhos de muita gente, mas não é generalização. É apenas uma citação sem maiores polêmicas. Não há pretensão alguma de ofensa aqui. E mais uma dúvida perene e latente acabou de se formar e pedir para ser jogada aos sete ventos, uma dúvida que quase chega ao âmago da mesmice: onde está a linha tênue que separa a liberdade de expressão da ofensa? Onde está? Metafísico demais falar em linha tênue de separação, mas não há nada de mais impactante para o momento. É a mesmice que brota e flui em todos os fluidos possíveis. Todos os fluidos, sério.
A vida não é rara, a vida é uma praga.
(Jéssica.)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Coerência, do que se trata?

Eis que a história deixou de ser coerente e a aquilo que tinha tudo em perfeita sincronia foi para o beleléu, se bem que isso remete, sem compromisso algum, as clichês voltas de 360° que a vida dá sem  que os tão venerados seres humanos se deem conta. Mas vale ressaltar que uma volta completa não equivale a mudança, muito pelo contrário, é percorrer qualquer caminho (curto ou longo, repleto de obstáculos ou plano, com sexo ou entediante, com amores ou com apenas gostosas e/ou gostosos) e depois de tudo estar novamente no mesmo lugar e no mesmo estado.
Talvez seja apenas uma questão de não dar muita importância para aquilo que é efémero, mas é complexo em demasia distinguir o que se pode ou não sentir em pouco tempo. Ainda mais quando se dá muita corda para depois puxar e, sem muita pretensão, acabar por enforcar alguém capaz de respirar. Respirar, ainda mais quando a respiração se dá bem perto de seus ouvidos.
Uma das maneiras mais surrealística de se obter coerência é uma das mais pouco prováveis, pois implica em uma situação que não é nem um pouco perene e envolve variáveis pouco conhecidas, digamos que as constantes não são determinadas e o que era para ser inerente ao sistema só acaba por torná-lo ainda mais difícil de analisar. É uma fuga daquilo que é rotineiro, daquilo que está frequentemente em nosso horizonte, uma viagem que permite dizer não à quase todos os tabus e tradições.
Mas dizer não à todos os tabus é uma gigantesca utopia, é improvável. Quisera saber da existência de quem levou tudo as últimas consequências, pois querendo ou não, é como se fosse um pirulito. É doce e, para quem não é diabético, o lógico é que seja prazeroso.
(Jéssica.)