Vou conhecê-lo em um trem a caminho do seu destino, não me manifestarei, mas você com toda sua petulância vai me dar o "oi" mais empolgado que já pude ouvir. Não vou me fazer de rogada, responderei a altura. A sequência mais lógica para um possível diálogo: "tudo bem, rapaz?". A surpresa de um silêncio sorridente me espantará, mas os espantos não me causarão náuseas, apenas sentirei algumas borboletas coloridas em meu estômago fazendo cócegas. Eu saberei diferenciar borboletas de lombrigas. Todos sabem, faz parte daquele leque de informações que já nascemos sabendo. O trivial e o inerente.
Épico e sutil ao mesmo tempo. Discreto, você vai parar de ler seu livro e se sentará do meu lado. Nomes e endereços são tão patéticos. Para se conversar com alguém não há necessidade de se conhecer sua identidade, basta compartilhar o mesmo idioma. Tão pouco há necessidade da verdade nua e crua, a imaginação é a essência do fictício, do romântico, do perfeito, dos anseios e dos fetiches. Conversar sobre fatos fica sobre tutela dos jornalistas e cientistas, no diálogo qualquer invenção é válida, toda suposição pode ser destrinchada em algo ainda maior. Nessa narrativa não usaremos a navalha de Ockham. Não iremos perceber quando entrarmos em um emaranhado, nossa narrativa se alongará e dilatará.
No mundo espiritual colocaremos modelos científicos, iremos gargalhar de nossa capacidade de distorcer e mistificar ainda mais conceitos como reencarnação, sonhos, vida e morte. No mundo material colocaremos magia, o que nos encanta, o que não sabemos, o que nunca saberemos, a brevidade dos idos e vindos, tudo isso dentro do trem a caminho do seu destino. Seu destino será longínquo o bastante para que nossas percepções sejam suficientemente incrementadas com pitadas de conhecimento sem propósito. Aquilo que só diz respeito a nós e, quem sabe um dia, venha a se tornar um livro que será interpretado de forma excêntrica gerando um outro tipo de conhecimento que não dirá respeito aos autores, a nós.
O que dirão do nosso diálogo enfadonho não nos cabe. O maquinista não se dará conta do que ocorrerá, nem deveria. Terá poesia, eu sei que terá música também. Aquilo que é sorumbático também terá seu espaço, angustias inventadas, tristezas verídicas.
O trem descarrilará, você aprenderá a conviver com aquela visão epicurista de que enquanto somos a morte não há e, quando ela passa a existir, nós é quem deixamos de existir. Deixarei de existir e seu destino não me terá, mas seu passado, quiçá.
(Jéssica.)
"Oh, you're very charming sir
Now here's to you
I don't want to know your name
Or what you do
I know, here's to strangers on a train
Strangers on a train."
"Oh, you're very charming sir
Now here's to you
I don't want to know your name
Or what you do
I know, here's to strangers on a train
Strangers on a train."
(Está é uma simples citação musical: Strangers on a Train - Lovage).

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