terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Crise da pouca idade.

É raça, meio e momento se misturando para dar origem a um contexto, que leva a uma personalidade, crença, ideal. É a sorumbática segregação daquilo que não condiz com aquilo que é inerentemente seu. Maldito seja o intervalo de tempo que há entre os 18 e 28 anos, aqueles anos que ou se alcança o climáx ou jamais será. São os dez anos onde o estereótipo se reafirma ou é negado, onde a realidade te chuta as bolas ou as tetas e faz com que lágrimas rolem em sua face ainda firme e tenra. O pedido de arrego está sempre na iminência de ser balbuciado, mas não o é, pois se é jovem e desistência fica para a crise da meia idade.
(Jéssica.)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Opa, levei um prejuízo.

Coitada de mim que não sei como se faz um bom texto poético e que anda pela cidade buscando inspiração, todavia só vejo coisas tão óbvias que com o tempo, fluindo sempre em uma única direção (pelo menos no mundo macroscópio como conhecemos), trata de tornar tudo escrotamente opaco. É o preço que se paga por não buscar encantamento. Tornam-se vãs aquelas coisas que deveriam ser mágicas em sua estupenda inerência, como a dança do acasalamento dos porcos-espinhos.
Ao acordar tomo aquele banho de ironia e dali, do box do banheiro, local que pode ter um quê de fantasia erótica, preparo-me para um saudoso dia que vem com toda sua protuperância tornar estonteante a maravilha das inter e intraligações mundiais, negociações de modo a obter o menor prejuízo.
Sinto dizer a todos, não busquem o lucro, ele é apenas uma simplória concepção evolutiva e veementemente discutida entre os belíssimos cults marxistas e os sagazes elitistas, de modo a camuflar algo que é tão espontâneo. Igualando prejuízo a entropia, posso afirmar, dada a licença poética que esse enfadonho protótipo de texto surrealístico me fornece, que o prejuízo do universo sempre será maior que zero.
Minha linda humanidade, entramos numa viagem sem volta e buscar a remediação é blá-blá-blá para fazer neném nanar. E o que posso recomendar para todos aqueles que baseiam sua incrível vida na geração de uma outra, pensando que assim, através de seu filho manterá viva suas ânsias, é que não. Sinto muito, não o coloque aqui, você não sabe se ele quer passear nesse trem da alegria e ele pode vir a jogar isso na sua cara. Mas aqueles que querem procriar pagam o preço, sempre pagam, ou a vizinhança paga. Alguém paga esse prejuízo. Um exemplo desse fato é a criança berrando por qualquer futilidade num ambiente como um supermercado, a vizinhança paga! Santa irritação.
Conclui-se, portanto, que minha visão é fatalista e que o mundo vai acabar numa zona altamente entrópica e com muitos vácuos quânticos latejando para originar novamente tudo isso que nos é conhecido. Grata.
(Jéssica.)

domingo, 31 de outubro de 2010

Fetiche.

Sob a mesa havia muita coisa, inúmeros detalhes. Pó, muito pó. Há tempos tal mesa não passava por uma limpeza. Seres andavam em sua superfície rugosa. Formiga, muita formiga. O menino passou por aquele local sem muita perícia ou talvez buscasse detalhe em demasia.
Menino jovem. Bonito. Alto. Longos cabelos. Nariz pequeno. Boca delicada. Fisicamente um encanto. Andava de modo a ignorar o restante do mundo, mas não havia nada que ele pudesse ignorar ali. Ignorava o ar que respirava, ignorava sua própria presença. Seus olhos escuros e sua sobrancelha bem desenhada tornavam seu olhar tão comum, pois perante ao conjunto da obra nada se sobressaia. A única janela da sala permitia algo encantador: quando o vento batia em sua face notava-se o quão farto eram seus cabelos, tão escuros quantos os olhos, eles tocavam suas costas com uma sutileza estonteante e quando tocavam o rosto a brancura de sua pele ficava ainda mais latente.
Seus dedos tocaram a mesa e um pouco do pó aderiu a eles. O que quer que ele buscasse não era possível que estive ali, naquele cômodo esquecido a tempos. Não havia expressão em seu rosto, nenhuma que fosse perceptível. Asco, entusiasmo, medo, paixão, decepção...
Eis que surgiu um suspiro. Não havia conexão em seus sons, não faziam sentido, entretanto aquele suspiro rouco mostrava pelo menos um pouco mais quem ele era.
"Não busco, não quero, não desejo nada que seja real. Sendo eu apenas consequência de um emaranhado de acontecimentos ao acaso, o que querem de mim? Vejo-me falando sozinho num tom formal, num cômodo que minha imaginação criou. Entretanto, reza a lenda que nada se perde e nada se cria. Será que se transforma mesmo? Transformo-me todos os dias. Deixo-me transformar, mas nem toda reação obtém o produto esperado. Sinto muito, mas creio que dessas reações sou o descarte. Sinto ainda mais em dizer que eu fico imensamente feliz por ser assim, um produto desprezível. Porém eu posso criar. Crio e sinto ser real. É real. O amor, os personagens, o enredo, o místico." - falava com uma calma irritante enquanto andava com passos lentos ao redor da mesa. Toda aquela filosofia queria ir além, mas ao mesmo tempo era tão vã, chegava a ser patética.
Estava abafado, muito quente. Um suor no canto direito de sua testa escorreu devagar. Não demonstrava cansaço. Sua voz era incrivelmente marcante, tinha uma doce rouquidão. O contorno de seu corpo era algo agradável aos olhos. Não havia sentido naquilo: era muita coisa, situações, transformações, metas que não encontravam fluidez, pelo menos não naquele menino.
Até que num instante nada apropriado ele se aconchega, sentando-se no chão, juntando suas pernas, encolhendo-se, fechando-se. Ele não notava o desespero que tudo a sua volta tinha de desvendá-lo? Toda aquela poeira parecia querer gritar para ele se abrir, mostrar o rosto, a pele, cada contorno. Quão belo. Seria tímido? Fraterno? Inconsequente? Desagradável?
"Fecho-me em meu mundo, mundo que criei em meu subconsciente, nele há o que quero. Exatamente nada. Quero um local onde não haja o medo de perder e para isso a melhor solução é ter como companhia o nada, mas não me contive com o nada e nesse mundo criei um alguém, assim como Deus fez para agradar Adão, fiz meu par, a moça que habita meus devaneios, minhas vontades, minhas supérfluas ideologias."
Não existe felicidade se não há meios de compartilhá-la com alguém. Isso parece ser uma lei universal. Daí advém o ar trágico daquele menino, onde está a moça? Ele criou um mundo onde impera a ausência e a única coisa que ele queria ter ao lado, ali não se encontrava.
"Contudo, há uma força demasiadamente humana em mim, que não criei, que não desejava ter por aqui, que abomino: amor. Como colocar o ser que mais idolatro, que desenhei com imenso primor, ao meu lado? Esse mundo quem criou foi eu, entretanto não quero e não vou enraizar ninguém nessas poeiras mentais. Meu ciúme, meu sentimento de posse pela criatura que criei, logo eu que desejava o vazio, quando vi os olhos daquela mulher encontrei o tudo. Sua altura, sua cintura, seus cabelos ondulados, sua boca, sua voz. Que maldita força é essa? Quero-a aqui, bem aqui, mas tudo está além do meu dom de criação."
Entre idas e vindas o fluxo de sua respiração era alterado, era notável, mesmo quando ele estava quieto, pelo menos agora uma coisa ele era capaz de demonstrar: dúvida. Mesmo assim não havia medo. Ele de fato estava no mundo que ele criara, pois se fosse o mundo convencial haveria medo (quem ama tem medo de perder, e isso ele não pôs no mundo dele).
O beijo lento, calmo, saboroso e suculento, era o que mais queria. Queria poder entrelaçar suas mãos, sentir o calor que emanava de sua respiração, queria música para que colasse seu corpo no dela e assim embalados pela melodia dançassem, sincronizados. Queria mais que simplesmente pele, sexo e suor, queria a troca de olhares, queria a malícia, queria a filosofia, as longas discussões. O fim de tarde, sentados, ela de costas para ele e ele com os braços a sua volta e a boca em seu ouvido, queria simplesmente a incrível sensação de imaginar a eternidade que só aquele sentimento estrondoso e surreal proporcionava.
O que talvez aquele menino não tinha percebido é que o criara em sua mente era apenas um meio de afugentar algo tão comum nas peripécias de todos aqueles que possuem um subconsciente capaz de desejar curvas de um corpo alheio, são os fetiches e a idealização da pessoa que se ama. Na verdade, naquela mesa onde só havia pó, ele almeja colocar o corpo dela bem de leve de modo a conhecê-la bem devagar, gosto e tato nas preliminares, o passar de mãos e o atrito que leva à umidade e calor, e depois, a linguagem universal do corpo diz qual o caminho.
(Jéssica.)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Racionalidade.

Na ânsia de continuidade: filhos.
Na ânsia de explicações: ciência e religiões.
Na ânsia de regras: medos.
Na ânsia de mais: exagero.

Sociedade composta de homens,
ilimitados em suas invenções,
topo da cadeia alimentar graças a elas.
Se diz pensante, se diz lógico.

Não há outro ser que diz não ao instinto,
Podemos ser conscientemente do contra
E isso aparentemente não nos é perigoso.
A insalubridade é tão mais doce.

Negue aquilo que seu corpo pede
Assim provará ser de fato uma criatura racional.
(Jéssica.)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Uma e meia da madrugada.

Sobre todas as coisas do mundo tenho uma coisa para dizer, para todos os amores que obtive tenho um beijo, para as discórdias que causei tenho ombros, para as lágrimas que escorreram em meu rosto tenho motivos, para meus sonhos tenho o sono, para meus objetivos tenho vontade, para minha ira tenho silêncio. Não que o mundo gire ao meu redor ou coisa do gênero, mas apenas acho que há uma maneira de ver tudo isso que me parece muito coerente e por um acaso do destino é a minha maneira de ver, tocar, acariciar, socar.
Não é uma simples noção, mas é um conjunto imensurável de palavras que designam um monte de coisas que me fazem crer que há definições o suficiente e que estas saturam esse nosso meio. Hiperbóles são usadas em demasia e não faz o menor sentido uma fedelha escrever essas atrocidades que passam em sua mente querendo dessa forma compartilhar tais absurdos com pessoas que não merecem ler tais escritos, pois isso pode de alguma forma ter consequências trágicas e pouco saudáveis, não recomendo, é sério. 
Se eu tivesse algo para recomendar aos senhores recomendaria, mas sou tão lastimavelmente bobinha que não tenho. Já que está aqui, grite bem alto, coce sua virilha, sei lá. O que eu posso indicar para esses seres perdidos numa noite pacata? Talvez música, música esquenta, música esfria, música provoca até ereções, música dá sono, música abre o apetite, música remete lembranças, música pode fazer papel de drogas. Posso recomendar também uma cama, um quarto, peço que coloque uma roupa bem levinha, se quiser dormi nu é até melhor, feche seus olhos e veja como é incrível, não fica completamente escuro. O lance é quente. Muito quente. Quente mesmo. Quentíssimo.
Está quente aqui onde estou. Se você pudesse tocar minhas mãos saberia. Há uma gotinha de suor escorrendo debaixo dos caracóis de meus cabelos, rente a minha orelha esquerda também  há uma  gota. Estava a lembrar de algumas histórias enquanto escrevo essas frases. Estava a pensar no momento que decidi transpor alguns pensamentos nessa página da internet. Sempre que escrevo prefiro primeiramente fazer um rascunho: papel, lápis ou caneta. Me soa mais romântico, arcaico, sincero. É como se houvesse mais fluidez nas orações que se formam em minha mente. Aqui, olhando para a tela do computador, sinto-me cansada. Minhas pálpebras começam a ficar mais pesadas, sinto que mereço uma cama e é para lá que vou, debaixo de minhas cobertas, onde meu mundo se concretiza, onde no escuro e sob o embalo do sono melodias se formam, pesadelos me fazem rir e ilusões se tornam tão reais que me fazem acreditar que são de fato reais e são reais. São reais. São lindas. São doces, macias, sensuais. São fofas.
(Jéssica.) 

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pena.

Assopre uma pena e veja até onde ela irá. Depois pense na rachada de ar que saiu de seus pulmões para que a pena levantasse voo. Até onde esse ar que estava dentro de você vai? Talvez toque a face de seu futuro amor, aquele cuja pele te fará tremer, cuja conversa não te enjoará, aquele que não terá pena de você. Sentir pena de alguém é algo deverasmente sem lógica alguma. Apenas, caso seja possível, estenda a mão. Se não puder, vire seu rosto e siga seu caminho. Não é dica de auto-ajuda, nem verborragia desnecessária, nem bobeiras transformadas em palavras. Não é nada, nem tampouco é tudo. Depende absolutamente do sentido ou da forma como essas ideias soltas e sem contexto te atingem, se é que atingem. Assopre. Respire. Você respira todo dia e não se cansa e não enjoa e nem percebe que está respirando. O que é constante passa desapercebido. Uma pena. Uma pena, mesmo.
(Jéssica.)

domingo, 20 de junho de 2010

Uma gotinha quente sobre a face.

Olhar no espelho e chorar incansavelmente até não lembrar mais por que chorava. Nos olhos um borrado contorno azul de quem a poucas horas atrás ria. Não vale a pena contar por que ria. Drama dá muito mais audiência.
Derreter-se em lágrimas no banheiro pode soar covarde, mas é timidez. Não saber expressar tristeza dói, pois não se consegue dividi-la. Mas é explicável tal fato: é mais prazeroso compartilhar ou fazer surgir um sorriso, mesmo que se esteja querendo apenas encostar no ombro alheio e ouvir seu silêncio.
E no banheiro é tão mais simples, há um espelho e nele nota-se o reflexo sorumbático de seu próprio ser e ali, naquele exato momento, longe dos olhos de todos enxerga-se apenas o seu enchendo-se pouco a pouco, os lábios tremendo silenciosamente para que ninguém em casa ouça, as mãos apoiando-se sobre a pia gélida para sustentar seu corpo; dessa forma o choro chega e os olhos vermelhos aliviam a angústia, o medo, o ira, a inveja, o amor, o desconsolo, a saudade ou quiçá uma simplória tristeza.
Há prós nessa maneira de sofrer, embora pareça uma mera síndrome do auto-flagelo gótico. A sós as lágrimas parecem mais livres, não há ninguém tentando enxugá-las, assim elas duram mais tempo, assim são mais puras e sinceras, assim elas demonstram o que no âmago deseja-se. Talvez nem se deseje, talvez seja saudade daqueles sonhos bonitos que a imaginação cria, onde dentro de sua surreal realidade, as peripécias mundanas são mais cor-de-rosa e cujas consequências são doces e suaves.
Após a analise de tais quesitos os olhos cheios de lágrimas fecham-se, estas escorrem quentes pelas bochechas, e finalmente secam para num outro momento retornarem.
(Jéssica.)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Por quê?

Nos grandes porquês a vida encontra finalidade e buscando porquês esta se torna um tanto quanto confusa. Não há nada de muito estupendo nisso tudo, convencionou-se portanto, que quando há um padrão nos acontecimentos há um porquê absolutamente intrínseco a ele e cabe a curiosidade humana decifrá-lo.
Há entretanto uma dificuldade neste quesito. De que modo elaborar um porquê satisfatório? Por que elaborá-lo? A análise não muito profunda dos porquês tipicamente humanos leva a uma conclusão breve, supérflua e sucinta: aquilo que de alguma forma é importante, desperta a curiosidade ou chama a atenção desencadeia a busca frenética, alucinante, emocionante, desesperante por um porquê.
Quantas áreas de conhecimento cada porquê distinto criou, inúmeras.  Inúmeros especialistas em um único porquê. Há muita dificuldade no caminho daquele que trabalha em busca de um porquê, e não importa quem seja, psicólogo, filósofo, ou quem sabe um cientista, ou fatalmente aquele tio que assiste aos domingos o Gugu e chora com as histórias de uma família pobre ajudada pelo programa, pode ser também um adolescente fanático pelo Flamengo, ou então a modelo loira e bonita,  ou num momento de revolta o cabeludo que só usa camisa de banda. Os porquês sempre surgem, seja pela busca de um sentido ou pelo simples prazer de reformular uma teoria ou tradição ou tabu.
Porquês são especialmente excitantes quando de alguma forma saciam, dão plenitude. E o mais incrível é a maleabilidade dos porquês, são adaptáveis, sujeitos a interpretações aleatórias, não oferecem resistência a quem se permite usá-los, moldá-los ao seu bel-prazer.
Mas há um caráter dualístico: porquês podem se transformar em extremos na mente daquele que o aceita como verdade, e assim, ao invés de serem excitantes podem limitar e restringir, castrar. Além de que porquês nem sempre trazem consigo uma explicação feliz, explicar o que é categoricamente humano requer que eles sejam ora míticos, ora lógicos, ora baseados no método científico, ora tristes, ora especialmente desastrosos. 
Os porquês são de suma importância, isso raramente há quem negue, mas é complexo quando se tem confiança na veracidade de um porquê e se percebe que ele simplesmente não condiz. Entra-se num colapso desencadeado por um simples paradoxo que pode levar por sua vez a uma desconfiança medonha naquilo explicado pelo conhecimento desses seres racionais.
(Jéssica.)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Quando não há lucidez surge isso.


Um grito de redenção.
Uma gotícula de suor percorre cada contorno indevido de seu corpo.
Só admiram, nem notam.
Arte surreal, num grito tão singelo.
Lábios como maçã, árvore da ciência do bem e do mal.
Eternidade transformada em pouco tempo.
Muito pouco tempo.
Acaba.
E as asas atrofiam. Lamarck já dizia.
Desejou voar, pecou.
Um grito de misericórdia.
(Jéssica.)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Imperativo.


Usa-se em imensa concentração o imperativo.
Jura-se até por em risco uma garganta.
Quantas falácias há em uma pequena oração?
Versos profundos, repletos de preciosismo linguistico.
Ideias contratitórias sem um porquê explícito.
Que chegue o momento em que a era alucinógica impere.
Ela sim impere.
Não os verbos no imperativo.
Por enquanto sem mais.
Amem!
(Jéssica.)

terça-feira, 30 de março de 2010

Porque tudo esbarra nisso.

Buscar a verdade, defender uma ideia, acreditar. Dias vem, dias vão, tantas descobertas surgem e outras milhares de dúvidas. "Estamos vivos, sem motivos. Que motivos temos pra estar?", assim diz uma canção de Humberto Gessinger. Questões que milhares de exemplares da espécie humana fazem, alguns respondem, outros não, mas a questão impera soberana.
Noites e mais noites repletas de viagens pelas afirmações humanas. Hoje está na moda afirmar a inexistência. De quê? Tudo. Amor, conceito humano que na realidade nem existe. Deus, conceito humano que na realidade nem existe. Família, conceito humano que na realidade nem existe. Resumindo, tudo que é inerente a preceitos sociais. Tudo que foge da dita inválivel lógica científica. Enquanto isso a soberba ciência se baseia em teorias, teorias, teorias. Mas ela só é soberba, pois tais teorias respondem com ótima eficiência muitas perguntas, e tais respostas são falseadas infinitamente. Ela é soberba mas se permite a provas.
E os conceitos humanos? Giram em volta de dois pilares: amor e inveja. O resto é tudo consequência desses dois. O ódio surge da inveja ou então do amor incorrespondido. A guerra surge da inveja ou então do amor, dizem que grandes guerras foram desencadeadas por mulheres, nomes como o de Helena de Tróia surge (visão romântica da história? Pode até ser, mas essa visão existe). O medo surge do amor exacerbado, o medo da perda, o medo da morte. A religião surge do amor, o amor em algo que aconchega, dá razão de ser a tudo, que dá esperança.
"Que motivos temos para estar?", talvez nenhum, talvez inúmeros, talvez não há a necessidade de se ter um motivo. A vida pode ser agradável sem se ter um motivo além desse que os sentidos humanos captam, pode ser incrível sem uma razão além da compreensão humana. Mas faltaria algo. Faltaria uns dos pilares dos conceitos humanos: o amor. Pois este não é explicado pelos sentidos, alias nem explicado é, fala-se muito, conceitua-se em demasia algo que não aparenta ter conceito fixo e universal.
Do livro sagrado do cristianismo tira-se um possível conceito de amor:
"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor."
Trecho de um livro dito contraditório, mas que determinou e determina o atual contexto da atualidade. Que definiu e ainda define inúmeros conceitos humanos, mas que se baseia em algo ou alguém além do que pode ser conhecido do ser humano. Exatamente, do que pode ser conhecido. Tal livro é contraditório? Pode ser, mas é compreensível porque o é. São experiências do que é o amor para pessoas, é como se manisfesta esse "bem maior" para pessoas, e pessoas sentem o amor de maneiras distintas. Conceitos humanos são passíveis de inúmeras variáveis, de inúmeras consequências, podem levar a uma encruzilhada ou a resposta de muitas questões, pode trazem satisfação ou a ausência dela.
Neste fato encontra-se a mágica da racionalidade, o incrível da imaginação, talvez a realidade da ilusão. Amar algo além de tudo, temê-lo além tudo, ter fé em sua bondade e sapiência infinita. Isso existe. Isso é real, isso muda o contexto, a vida, os devaneios de muita gente. Isso muda a concepção de uma nação, muda os contornos da ética, define uma moral; pode não ser absoluta, pode não ser a única, pode nem ser a correta, talvez nem a mais indicada, mas é o que há disponível no mercado das noções tipicamentes humanas.
(Jéssica.)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Lá está aquele senhor.

Certa vez, eis que alguém parou para analisar o comportamento humano, e por incrível que pareça, chegou a uma conclusão: nascemos sem pedir para nascer, somos ensinados a seguir o que dizem ser certo, vivemos e finalmente envelhemos para finalmente descansar. Descansar?
Aquele senhor, aquele simples e simpático homem, que já foi uma criança, brincou pelas ruas da sua cidade, teve amigos, uma boa criação, entretanto perdeu os pais ainda jovem. Jovem... Era um garoto esperto, estudava e trabalhava, trabalhava muito. As coisas evoluem (ou recridem, depende muito do ângulo que se escolhe para analisar) e tal garoto tornou-se um homem, casou-se. Continuou a trabalhar, o seu suor sustentava uma família, sua família.
Aquele senhor, aquela figura que hoje para muitos transmite uma ideia de incapacidade e de inutilidade, já fez muito e fez bem feito. Ele não sustentava apenas sua família, mas uma nação inteira, ele juntamente com toda uma população dita ativa.
População ativa? Quanta imbecilidade. Somos considerados gente apenas enquanto produzimos? Apenas enquanto damos lucro? Parece que sim, a realidade neste caso parece que não segue uma lógica humanística, mas uma comercial.
Aquele senhor cujo os filhos parecem vê-lo como um estorvo, representa a clássica imagem do descaso para com aqueles que já viveram muito e tem muito para ensinar. Um ser humano que lutou para sobreviver e criar sua família, que trabalhou, pagou impostos, para que agora, finalmente agora, pudesse ter uma vida sossegada, uma velhice tranquila, entretanto lá está aquele senhor: num asilo, muitas vezes esquecido, em péssimas condições, mas há um estatuto! Uma salvação.
Sim, há uma salvação. Ela sempre habita o âmago do problema, basta encarar a questão que descobrimos uma solução. Há leis que ampara e protege o idoso, mas existe um pequeno porém, sem colocá-las verdadeiramente em prática, não na forma de punição, mas na forma de educação, não há razão para que elas existam.
Numa sociedade que renega suas bases, tudo é frágil, tudo é superficial, recente, sem experiências. Aquele senhor que tanto cuidou, hoje merece ser cuidado e mais do que isso, ele tem que ser ouvido. A solução efetiva está na forma como cada ser trata seu alheio. Analisar as mazelas humanas é algo árduo, compreender como muitos de nos desmerecem aquele que um dia nos ensinou a andar. Estamos longe de nos entender ou tão próximos que fugimos da resposta.
(Jéssica.)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Céu.


Desperto medo com trovões e divindades habitanto meu espaço infinito. Sim, divindades. Não pensem que são misericordiosos. Como se enganam, pobres criaturas. Gotas de água despencando de mim, nem sempre suavemente, a força está em mim. Eu sou a energia vital.
A sabedoria não está nos olhos daqueles que me admiram, nem em mim ela se encontra. O saber dança uma dança ilusória que só ilude a maioria. A maioria não me encanta com suas deduções, seu falso conhecimento. Eu sou o céu.
A dor me é desconhecida. Mas me atrai. Não tenho músculos para que a contração tome conta deles no desespero. Sou frio em minha essência, o sol que aquece a vocês não é capaz de me acalentar. Sol, tão finito em sua mísera existência que me provoca espasmos de desprezo.
A felicidade, algo tão efêmero e há quem pense ser eterna. Patético. Pode parecer que sou arrogante. Não se enganem. Por favor. Sou mesmo. Estou tão além da especulação, dos mitos, dos medos, das lendas, das músicas, das palavras. As criaturas como vocês eram melhores na pré-história, conseguem imaginar o porquê. Simples, não havia escrita. Com a escrita surgiram suas mazelas. Suas religiões. Seus dogmas. Suas verdades que em nada me atingem. Nada.
A vontade, isso em vocês me parece, digamos que, um pouco interessante. Estou cometendo um grande exagero aqui. Mas eu posso, sou inalcançável. Querem coisinhas tão pequeninas e mesmo assim as enfeitam com lantejoulas e bijuterias para se sentirem estrelas. Pobres estrelas que me habitam, se tivessem noção do que a palavra permitiu a esses seres, usar o nome que a designa para suas futilidades mundanas. Sinto dizer, aliás, não sinto, mas vocês são ridículos.
O amor, interessante o modo como os seres que estão embaixo do meu supremo manto se aconchegam entre si, quando se permitem aconchegar. Pois não há seres mais repletos de miseráveis paradoxos que essas criaturas que inventaram o amor. Querem um amor, mas o repelem com suas deturpações do que é real. Possuem visão, mas preferem ficar me olhando, buscando metáforas que me ofendem. Ofendem em demasia. Não sabem me olhar, não têm sensibilidade para entender meu âmago. Criaturas desprezíveis que querem amar. 
E eu, aqui, alheio a tudo que fazem, pensam, almejam, mas tudo sei. Sou mais que vocês. Sou grande demais para seus retratos da natureza em que vivem. Sou grande demais para os poetas e suas figuras de linguagem, seus versos. Sou grande demais para a ciência que vocês desenvolvem. Sou grande demais para seus sonhos.
(Jéssica.)