Sob a mesa havia muita coisa, inúmeros detalhes. Pó, muito pó. Há tempos tal mesa não passava por uma limpeza. Seres andavam em sua superfície rugosa. Formiga, muita formiga. O menino passou por aquele local sem muita perícia ou talvez buscasse detalhe em demasia.
Menino jovem. Bonito. Alto. Longos cabelos. Nariz pequeno. Boca delicada. Fisicamente um encanto. Andava de modo a ignorar o restante do mundo, mas não havia nada que ele pudesse ignorar ali. Ignorava o ar que respirava, ignorava sua própria presença. Seus olhos escuros e sua sobrancelha bem desenhada tornavam seu olhar tão comum, pois perante ao conjunto da obra nada se sobressaia. A única janela da sala permitia algo encantador: quando o vento batia em sua face notava-se o quão farto eram seus cabelos, tão escuros quantos os olhos, eles tocavam suas costas com uma sutileza estonteante e quando tocavam o rosto a brancura de sua pele ficava ainda mais latente.
Seus dedos tocaram a mesa e um pouco do pó aderiu a eles. O que quer que ele buscasse não era possível que estive ali, naquele cômodo esquecido a tempos. Não havia expressão em seu rosto, nenhuma que fosse perceptível. Asco, entusiasmo, medo, paixão, decepção...
Eis que surgiu um suspiro. Não havia conexão em seus sons, não faziam sentido, entretanto aquele suspiro rouco mostrava pelo menos um pouco mais quem ele era.
"Não busco, não quero, não desejo nada que seja real. Sendo eu apenas consequência de um emaranhado de acontecimentos ao acaso, o que querem de mim? Vejo-me falando sozinho num tom formal, num cômodo que minha imaginação criou. Entretanto, reza a lenda que nada se perde e nada se cria. Será que se transforma mesmo? Transformo-me todos os dias. Deixo-me transformar, mas nem toda reação obtém o produto esperado. Sinto muito, mas creio que dessas reações sou o descarte. Sinto ainda mais em dizer que eu fico imensamente feliz por ser assim, um produto desprezível. Porém eu posso criar. Crio e sinto ser real. É real. O amor, os personagens, o enredo, o místico." - falava com uma calma irritante enquanto andava com passos lentos ao redor da mesa. Toda aquela filosofia queria ir além, mas ao mesmo tempo era tão vã, chegava a ser patética.
Estava abafado, muito quente. Um suor no canto direito de sua testa escorreu devagar. Não demonstrava cansaço. Sua voz era incrivelmente marcante, tinha uma doce rouquidão. O contorno de seu corpo era algo agradável aos olhos. Não havia sentido naquilo: era muita coisa, situações, transformações, metas que não encontravam fluidez, pelo menos não naquele menino.
Até que num instante nada apropriado ele se aconchega, sentando-se no chão, juntando suas pernas, encolhendo-se, fechando-se. Ele não notava o desespero que tudo a sua volta tinha de desvendá-lo? Toda aquela poeira parecia querer gritar para ele se abrir, mostrar o rosto, a pele, cada contorno. Quão belo. Seria tímido? Fraterno? Inconsequente? Desagradável?
"Fecho-me em meu mundo, mundo que criei em meu subconsciente, nele há o que quero. Exatamente nada. Quero um local onde não haja o medo de perder e para isso a melhor solução é ter como companhia o nada, mas não me contive com o nada e nesse mundo criei um alguém, assim como Deus fez para agradar Adão, fiz meu par, a moça que habita meus devaneios, minhas vontades, minhas supérfluas ideologias."
Não existe felicidade se não há meios de compartilhá-la com alguém. Isso parece ser uma lei universal. Daí advém o ar trágico daquele menino, onde está a moça? Ele criou um mundo onde impera a ausência e a única coisa que ele queria ter ao lado, ali não se encontrava.
"Contudo, há uma força demasiadamente humana em mim, que não criei, que não desejava ter por aqui, que abomino: amor. Como colocar o ser que mais idolatro, que desenhei com imenso primor, ao meu lado? Esse mundo quem criou foi eu, entretanto não quero e não vou enraizar ninguém nessas poeiras mentais. Meu ciúme, meu sentimento de posse pela criatura que criei, logo eu que desejava o vazio, quando vi os olhos daquela mulher encontrei o tudo. Sua altura, sua cintura, seus cabelos ondulados, sua boca, sua voz. Que maldita força é essa? Quero-a aqui, bem aqui, mas tudo está além do meu dom de criação."
Entre idas e vindas o fluxo de sua respiração era alterado, era notável, mesmo quando ele estava quieto, pelo menos agora uma coisa ele era capaz de demonstrar: dúvida. Mesmo assim não havia medo. Ele de fato estava no mundo que ele criara, pois se fosse o mundo convencial haveria medo (quem ama tem medo de perder, e isso ele não pôs no mundo dele).
O beijo lento, calmo, saboroso e suculento, era o que mais queria. Queria poder entrelaçar suas mãos, sentir o calor que emanava de sua respiração, queria música para que colasse seu corpo no dela e assim embalados pela melodia dançassem, sincronizados. Queria mais que simplesmente pele, sexo e suor, queria a troca de olhares, queria a malícia, queria a filosofia, as longas discussões. O fim de tarde, sentados, ela de costas para ele e ele com os braços a sua volta e a boca em seu ouvido, queria simplesmente a incrível sensação de imaginar a eternidade que só aquele sentimento estrondoso e surreal proporcionava.
O que talvez aquele menino não tinha percebido é que o criara em sua mente era apenas um meio de afugentar algo tão comum nas peripécias de todos aqueles que possuem um subconsciente capaz de desejar curvas de um corpo alheio, são os fetiches e a idealização da pessoa que se ama. Na verdade, naquela mesa onde só havia pó, ele almeja colocar o corpo dela bem de leve de modo a conhecê-la bem devagar, gosto e tato nas preliminares, o passar de mãos e o atrito que leva à umidade e calor, e depois, a linguagem universal do corpo diz qual o caminho.
(Jéssica.)
O beijo lento, calmo, saboroso e suculento, era o que mais queria. Queria poder entrelaçar suas mãos, sentir o calor que emanava de sua respiração, queria música para que colasse seu corpo no dela e assim embalados pela melodia dançassem, sincronizados. Queria mais que simplesmente pele, sexo e suor, queria a troca de olhares, queria a malícia, queria a filosofia, as longas discussões. O fim de tarde, sentados, ela de costas para ele e ele com os braços a sua volta e a boca em seu ouvido, queria simplesmente a incrível sensação de imaginar a eternidade que só aquele sentimento estrondoso e surreal proporcionava.
O que talvez aquele menino não tinha percebido é que o criara em sua mente era apenas um meio de afugentar algo tão comum nas peripécias de todos aqueles que possuem um subconsciente capaz de desejar curvas de um corpo alheio, são os fetiches e a idealização da pessoa que se ama. Na verdade, naquela mesa onde só havia pó, ele almeja colocar o corpo dela bem de leve de modo a conhecê-la bem devagar, gosto e tato nas preliminares, o passar de mãos e o atrito que leva à umidade e calor, e depois, a linguagem universal do corpo diz qual o caminho.
(Jéssica.)
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