quinta-feira, 21 de junho de 2012

A finalidade do fim.


"No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne" [1], contudo a carne à terra retorna, "pois tu és pó e ao pó hás de voltar" [2]. A carne entrará em putrefação: é o fim. O que se pode dizer sobre o fim sem que soe herético em demasia, o que se conclui do fim das coisas?
"Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio" [3], somente na perda tem-se completa consciência do valor do que se tinha, somente com a morte as boas obras e o caráter são elevados até onde deveriam estar quando aquela pessoa querida nesse mundo se achava. O paradoxo da existência, a dislexia humana em enxergar o belo com a ausência do horrendo, em compreender a eternidade sendo essa existência tão finita aos olhos demasiadamente humanos. Para se ter ciência do bem e do mal o homem torna-se escravo do antagonismo: duas estradas, dois caminhos, mas sabe-se que somente um trajeto é o correto e que o livre-arbítrio é exclusivamente seu.
O certo e o errado juntamente com a capacidade imaginativa ou intelectual ou depravada ou genuinamente boa do homem torna a escolha subjetiva e a verdade relativa? Seria o meio-termo digno? Talvez um pouco de coragem e tempo a mais e quiçá seria possível desbravar uma nova estrada, um outro caminho. A autenticidade transgride a Lei, pois parece que querer ocupar um local que não foi dado como opção é a origem da iniquidade, parece que querer ir além é o pecado. Aliás, o homem jamais teve problemas, ele somente tem pecados e as consequências destes.
Felizes são aqueles cuja cegueira foi curada, uma vez que, de nada adianta acender a luz para um cego; "felizes os que não viram, mas mesmo assim creram" [4]. Que "coisas parecidas com escamas" [5] caíam dos olhos de quem quer ver, que a luz que adentrar livremente sua retina torne seu discernimento entre o que é certo ou o que é errado mais lógico e simplório. Que o fim das coisas seja muito mais belo que o surgimento das mesmas ou que o fim seja simplesmente uma conclusão irrevogável, o término em sua essência. Contudo, seria a finalidade do fim um recomeço? Será que dos escombros de uma destruição algo mais digno pode ser construído? Se toda causa tem um efeito, o fim tem uma causa ou o fim é o efeito? "É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão" [6] e não seria diferente com o fim.
(Jéssica.)

P.S.: Esse texto não foi elaborado com o intuito de mistificar ou desmistificar, confundir ou solucionar, deturpar ou dar novo significado aos versículos bíblicos citados (na ordem em que aparecem temos: Jo 1,1.14; Gn 3,19; Ec 7,8; Jo 20,29; At 9,18; Ec 1,2). Ele foi criado para estruturar um pensamento bastante desestruturado, para dar um raciocínio lógico aquilo que não está sob a jurisprudência da lógica. Questões de fé me intrigam.

Um comentário:

Anônimo disse...

Queria dizer primeiramente que adorei o texto: expressar algo como o fim (da vida) é tão complicado como tentar explicar o começo, ao meu ver. Em segundo, acredito que o valor de algumas pessoas é conhecido principalmente durante a vida e ao final desta é evidente que descobrimos um fake (na minha opinião) "algo a mais" na importância de algumas pessoas que estão no nosso convívio.

Ao digerirmos a idéia de que alguém querido "voltou ao pó", nosso egoísmo se sobressai e queremos voltar ao tempo onde podíamos ao menos ver tal ente, o que nos dá conforto nos dias atuais para com quem amamos (e talvez não conversemos tanto quanto gostaríamos). Quanto à morte das pessoas com quem não nos damos assim tão bem, costuma-se dizer que todos ao morrer "viram bonzinhos" e logo se elevam as ações destas pessoas em vida (Pena? Não. Isto se chama tolerância tardia ou reconhecimento tardio).

Observando os dois casos, vejo que a impressão de só enxergarmos as qualidades alheias no momento da morte é uma das lições que a própria morte nos deixa. Entendo que as qualidades alheias e as nossas sempre estiveram presentes, logicamente, mas devido à falta de valorização destas ao decorrer da vida, muitos de nós só enxerga o melhor de todos quando sabe que estes não mais estarão andando sobre a Terra (não errarão, acertarão e "não terão mais oportunidade de agirem e interagirem com outros seres"). É o perdão tardio, a tolerância que todos devem ter em vida. É normal observarmos as coisas ruins ao nosso redor, mas nós próprios acabamos por deturpar ou ocultar qualquer vestígio de qualidade e felicidade no mundo em que vivemos. Nós humanos, seres tão pensantes, temos uma péssima mania de querer viver irrealidades ou exaltarmos a realidade, mas no nosso complexo (muito complexo ainda) mundo interior, nem que seja lá no fundo das tripas, sabemos o que é bom e certo. Além disso, sabemos de algo muito importante: que nada é por acaso, logo ninguém é babaca ou mal aleatória ou gratuitamente, tudo tem um motivo.Quem é mal, o sabe, assim como quem é bom (para isso temos consciência, não?).

O nosso livre-arbítrio permite a tomada da decisão mais inovante e diferente, ao mesmo tempo que sabemos o que é bom e ruim para nós e para os outros ao agirmos. Logo, a verdade é uma só. Sinta agora mesmo, você que está lendo o sabe. Apesar de todos os seus conceitos formados e do seu livre-arbítrio, você não é capaz de alterar a verdade; aliás "alterar a verdade" na minha terra se chama uma nova realidade, ou seja, algo diferente e que não é a "verdadeira realidade". Vivamos cada um no seu mundinho e mesmo assim saberemos que mesmo entendendo o certo como o errado e o errado como certo somos capazes de sentir no nosso íntimo algo "latejando", avisando.

Acredito que todos fazemos o mal por muitos motivos, mas que o mal só tira a oportunidade de fazer o bem, que ele não exclui as qualidades de ninguém. Convenhamos que esquecemos de tudo isso quando estamos de “cabeça quente”, mas lembremos de reconhecer o intrínseco das pessoas em todas as situações que pudermos (sermos tolerantes E realistas em vida, ou seja, praticarmos o perdão em sua essência).

Acredito também, não sei ao certo porquê (talvez por não ter parado para refletir o suficiente e tirar a essência deste assunto), que só existem começos. Pode até parecer estranho e metafísico demais, mas é isso que sinto no meu interior: que a vida é bela demais e com oportunidades demais para começarmos uma vez só. “Sempre é possível recomeçarmos e fazermos um novo fim” disseram certo dia. Pois é, para mim o espaço entre o fim e o começo é tão curto...

Enfim, mil perdões por tantas linhas. Realmente foi o que filosofei sobre o assunto em pauta. Acho que isso que é importante em um texto: fazer com que as pessoas pensem e tirem conclusões sobre algo. Abraços.