quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A lua e a moça.


Qual a época em que vive a moça? Em qual época foi criança? Em qual época foi rebelde? Quando se fez ouvir? Quando desistiu do pirralho sem graça? Quando almejou o topo? Quando caiu do cavalo e viu que o sem graça era o homem da sua vida? Quando fez vinte anos? Quando deixou de ser moça? Talvez as fases da lua não fossem a metáfora mais apropriada para o momento, talvez seu ciclo menstrual nem se assemelhe ao ciclo lunar, talvez seja mais que vinte e oito dias. São trinta, mas nem um pouco regulares. Mas a moça se via totalmente maravilhada pelo brilho e a indiferença que a lua emanava, embora soubesse que a lua em si nada emana, é opaca. A lua, tão utilizada nos escritos pagãos, não brilha, e o auge da sua beleza se dá quando a lua apenas abraça plenamente a luz daquele que realmente emana, o sol. A lua apenas reflete aquilo que incide sobre ela, sobre sua superfície e, por incrível que pareça, isso não a faz menos importante. Talvez esse encantamento que ela proporciona se deva a sua capacidade de ser tão humilde a ponto de compartilhar aquilo que foi dado somente a ela.
Enquanto lua e sol pouco se interessam pela moça em questão, as marés continuam e o mar se rebela pela presença da lua. Novamente ela.
Voltar a moça supracitada seria deveras triste, pois sobre ela não há muito o que dizer. Muito mais interessante é o cantarolar dos mitos, a magia daquilo que envolve a moça e outros pelo mundo espalhados, a tecnologia e a ciência que não suprem os anseios demasiadamente humanos. Seria como se castrassem o futuro de uma prosa poética que se desenrola com o pensar distante e perplexo de um autor que talvez conheça essa moça que com tanto mistério e embromação cita e recita veementemente sua existência até que os possíveis leitores se cansem e peçam por clemência, pois não há palavras que possam segurar um leitor sem que estes achem um porquê nelas. Ilusório ou real, contudo um porquê que dê credibilidade para a ficção e/ou relato de um fato. São raros os casos em que se tem credibilidade aos vinte anos. Aos vinte anos somos rasos, profanos e nos julgamos erroneamente eternos.
O fato é que a moça fez vinte anos. É da época da negação. É da época da tragédia assistida e aplaudida. Sua geração, reza a lenda, nada acrescenta. É da época da ausência de alvo. É da época em que jovens dizem, sem saber do que ou para que ou para quem falam, que nasceram na época errada. Se sua época é a certa ou não, não há muito que se fazer, já está inclusa nela. Não foi rebelde o suficiente. O que almejar para sua época é a maior incógnita. Mas digamos que a moça com suas duas décadas de 'certidão de nascimento' os deixa por aqui. Mas fale dizer que daqui alguns dias vêm à festa que os cristãos não conseguiram deter, a remanescente manifestação pagã e carnal, o carnaval. Que a lua e a moça celebrem não o carnaval, mas aquilo que lhes parecerem instigante o suficiente.
Aos vinte e um ela voltará, fatalmente, com a mesma ladainha ou não. Rezemos.
(Jéssica.)

Um comentário:

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Podemos perder tudo. Amores, empregos, objetivos, pudores. Podemos ser completamente despidos de qualquer significado profundo. Mas o fato é que no raso da pele repousa o maior de todos os sentidos justamente por ser sensação. No raso da pele descansa a ternura, esperando que outras mãos, qual a humilde lua, possam ir além dos poros e enfim aceitar a irmandade para o fim que forma esse anel em torno da humanidade e em nós mesmos. Completando vinte anos e tendo consciência de tanto, certamente a moça verá a felicidade profunda na melancolia tênue que é imaginar a 9ª Sinfonia de Beethoven ecoando da Terra ao Cosmo em meio ao indevassável tecido do espaço-tempo. Impossível? Assim como o ontem e o amanhã, é impossível. Mas acaso não estamos aqui agora? Isso é o que vale: nostalgia enquanto imaginação passada; utopia enquanto imaginação futura; ao meio, nossa própria imaginação construindo os mitos do agora por sobre os quais toda certeza e incerteza emerge em um binômio de herege dissolução. Parabéns. Fraterno beijo, Frizzo.