sábado, 14 de novembro de 2009

Olhos.


Docemente dançou, enquanto sem pressa passava os olhos sob cada detalhe. Gestos significavam muito, passos em falso, frases incompletas, roupa e cabelo. Tudo era digno de ser observado. Houve alguém que quis deter aqueles olhos, não pode. Longos cílios, pupila tão serena numa íris de tom escuro, um piscar sutil.
Palavras foram sussuradas sem que houvesse culpa, entretanto tal sussuro não era ouvido. A distância entre o locutor e o receptor distorceu a mensagem, ninguém de fato se conhecia. O som real não chegou, mas foi intensamente almejado.
Hoje compreensão ainda não existe. "Há mais coisas entre o céu e a Terra do que ousa imaginar nossa vã filosofia". Quisera alguém ter noção plena do seu próprio ser, saber como reagirá quando posto em prova, quando tiver que vivenciar a situação com a qual mais criou ilusões, mais esperou. Mas talvez nem queira, surpreender-se é poder manter o deslumbre, mesmo que sofrido a posteriori, de estar vivo e achar graça nesse emaranhado de variáveis que é a vida.
Bom seria se o que foi imaginado com doçura se concretizasse, mas restou peso. Angustiante sensação de que aquele olhar captou coisas além do que queira ser mostrado. A impressão de que algo sublime perdeu o ponto por um conjunto de atos involuntários, inocentes, que num primeiro instante, não tinha culpa alguma.
Ausência de culpa, esta se extinguiu com a ausência do olhar, embora deveras revelador, confundiu. Restou novamente o sussurro distorcido, ambíguo. Restou pelo menos um ser na inanição de saber de onde veio tantas consequências inimagináveis. Só uma teoria ainda prevalece: encantar-se é perder-se em utopias, por mais que elas pareçam reais. Lembrando que teorias são desfeitas e nem sempre são significativamente abrangentes. Certamente essa só tem validade para o alguém que quis deter os olhos mais livres que conheceu.
(Jéssica.)

domingo, 1 de novembro de 2009

Paz, guerra.


Da onde vem a paz? Onde surgiu a guerra? Quem inventou as indagações?
Perguntas se formam e se dissolvem com os acontecimentos e sensações. Pessoas surgem e esclarecem. Pessoas surgem e confundem. Pessoas surgem e encantam. Envoltos num amontoado de sucetivos fatos corriqueiros ou surpreendentes há pessoas a caminhar. Pensar. Driblar. Desejar. Querer. Indagar.
Não aceitar algo como verdade requer coragem, requer dúvidas, disposição para discutir e se permitir conhecer facetas desconhecidas, surreais. Permitir-se é encarar a totalidade como um grande delírio e ir desvendando cada devaneio como algo novo e incrivelmente esclarecedor. Sonhos que trazem consigo vontades, vontades que produzem taquicardias tão sublimes, lágrimas que trazem consigo soluços oprimidos pelo desconhecido.
Paz, paz descobre-se ao abraçar, naquele abraço onde cheiro e tato se misturam e no qual o silêncio é tombado pela respiração. Paz, paz descobre-se ao conversar e compartilhar algumas indagações, ao inventar indagações e buscar respostas durante a conversa, e por mais que tal questão não seja sanada, encontrar na dúvida um encantamento. Paz, paz descobre-se na ausência de resposta, quando o sim ou o não, a realidade ou o surreal coexistem não interferindo naquilo que se sente. Paz, paz simplesmente se descobre, sente, tenta expor numa sequência lógica de pensamentos.
Guerra, guerra descobre-se na imposição de ideias, na falta de descobertas, na ausência de encanto, quanto o todo se torna rotineiro, quando os calafrios são de tédio. Guerra, guerra descobre-se na preocupação, quando o sim ou o não fazem toda a diferença, quando uma ação involuntária traz consequências incoerentes, tornando as questões sufocantes.
Guerra, paz, um monte de perguntas, pessoas. Sensações mescladas de sentimento que surgem trazendo tantas questões, tanta paz, tanta guerra. Pessoas tão suscetíveis a equívocos se permitindo e ao se permitir, errando. Entretanto, no meio dessas pessoas e questões, talvez, de um modo muito singelo, num colo, descubra-se a paz e sem perceber desperta-se a guerra.
(Jéssica.)