sexta-feira, 29 de julho de 2011

Carta.


Há uma vontade na escrita um pouco além do deixar uma marca, registro ou qualquer coisa que o valha. A caligrafia bonita, desenhada, itálica, fina; esta não é mais essencial, basta que haja a ínfima possibilidade de ser decifrada. É arcaico, romântico, excêntrico escrever uma carta. Amizade ou amor ou censura ou filosofia, o que se pode por em alguns papéis com um cotoco de lápis, é ultrapassado. Tão longínquo isto se mostra. O quão brega pode ser receber uma carta, uma carta elaborada com esmero? Aquelas cartas que carregam o cheiro de quem a escreveu despropositalmente, sem intuito, sem malícia.
Na caixinha de correspondência somente contas, cobranças, extratos bancários, compromissos de um 'eu' falido, que depois de muito estudar para se formar naquele curso que parecia refletir seu futuro brilhante, raramente pega em uma lapiseira pelo simplório desejo de escrever umas linhas eróticas para seu alguém. Palavras são eficientes preliminares, tão valiosas, ainda mais marcantes que aquela mordida indiscreta.
Uma figura antológica são os carteiros. Percorrem a cidade inteira. Buscam endereços, números, bairros, o código postal que pode até definir quem receberá a correspondência. O meio diz muito. Carteiros se dedicam a um trabalho braçal, árduo, mas que guarda muita sabedoria. A ruela que atravessou ontem para entregar uma conta das Casas Bahia era tão estreita. Será que a cobrança corresponde a compra de um móvel grande? O caminhão deve ter passado por ali com dificuldade. Fatalmente nem deve ter pensado nessas coisas, se pensou logo tudo se esvaneceu, ossos do ofício. Mais urgente em sua mente era a necessidade de voltar para casa, abraçar seu filho recém nascido.
Os vai-e-vens das histórias que não são relatadas por quem a vive, mas por algum escritor enfadonho e malandro, mas, indubitavelmente, sábio por usufruir da experiência alheia, de ter o molejo de coordenar as palavras ao seu bel-prazer, de poder abusar da arte da lábia, da retórica, das palavras. Palavras não são mais escritas de forma única por cada ser, mas massificada. ''Tudo em Times New Roman'', o professor pede para o trabalho de pesquisa para ser entregue semana que vem. Que as forças cósmicas, que por um acaso possam reger este universo, não permitam que o e-mail assassine a carta. Aliás, que não se anulem. A tecnologia é válida, mas não é uma boa preliminar, a tecnologia pode broxar. A escrita manual penetra, erotiza, valoriza, vai com calma, aumenta o ritmo, pede mais, envolve. Com a tecnologia pode-se lançar mão de emoticons que sucumbem o desejo de acrescentar um comentário a mais; emoticons tem um quê de conversa que se finda, de escrita que se dissolve em lago raso.
Cuidado nunca é demais, tudo que se escreve em uma carta pode ser usado como prova criminal. O eufemismo pode camuflar. Tudo pode ser contornado, pode ser menos intenso. Contudo, pode ser épico. Vai do escritor. Cuidado com a caligrafia, se ela for trêmula pode indicar um psicopata com ânsia de sangue. Cautela. A escrita está além do que se pode querer mostrar. Vai do leitor.
(Jéssica.)

sábado, 16 de julho de 2011

Segredo.


Contarei ao mundo um segredo a muito escondido. É o segredo que poderá unificar a ciência. A fórmula una que responderá matematicamente os fenômenos que regem o cotidiano e o obsoleto, tudo como pede o rigor analítico. Um segredo que poderá mudar os rumos do que hoje se tem como ciência.
Não, não. Fazer isso implica em desestabilização, esmigalhar nossa sólida e impermeável fundamentação teórica, nossos contornos idealistas. Não farei isso com uma humanidade que tanto roga pelo que é estável e cômodo e entediante e certeiro. Se eu cheguei a desvendar esse segredo, outro também poderia ter desvendado. Improvável. Nosso gênios são funcionários públicos. Vivem da burocracia e para a burocracia.
Uma pena que seja assim tão óbvio, mas a maior tristeza se encontra no fato de termos perdido o tesão com o que é inerentemente trivial. "O de sempre" já não tem aquele gosto de realização pessoal; o clássico, a divisão de classes, o despropósito da igualdade. Penso cá com meus botões como seria adentrar o núcleo da descoberta total, a plenitude de se chegar aquilo que simplesmente responde. Aí se encontra o suprasumo da problemática, o segredo só responde. Não soluciona, não permite que a paz reine. Devemos concordar que o medo nos instiga, em um mundo sem guerra morreríamos de tédio. Seria como entrar em colapso. Um fato sem tragédia não é manchete.
Meu segredo não se relaciona com "o poder interior". Não é mítico. É a visão plena de nossa lógica e ciência e filosofia descrita com toda e mais bela matemática. Matrizes, integrais, séries, derivadas. A dedução no seu mais perfeito "como quis demonstrar". A sua interpretação é simples, mas isenta de ambiguidades. Revelarei para quem? Quem ouviria, há quem ouça? Peço a atenção de todos os aqui presentes. Quando eu desvendei tal segredo, fui pega de surpresa, em minha audácia pensei que seria fria o suficiente. Eu chorei. Lágrimas quentinhas rolaram e pingaram no chão. Não quero que vocês chorem. Por isso não vou contar.
(Jéssica.)