No sonho daquele menino aconteceu coisas que ele não compreendeu. Havia tantos fatos que sua mente não conseguia absorver, entretanto ele não apagou de sua mente nem um segundo daquela noite imaginária.
Quando chegara em casa no dia anterior estava tudo como devia estar. Não havia ninguém, seus pais estavam trabalhando e naquele dia a moça que faxinava não tinha ido, certamente era sua folga. Tinha vários trabalhos escolares para serem feitos. Entrou em seu quarto e começou a realizá-los, era sempre muito caprichoso com suas coisas, escola ou notas nunca foi problema. Pegou alguma coisa para comer na geladeira e foi para seu quarto.
Era um menino só. Não tinha irmãos. Pai e mãe sempre trabalhando, tudo que eles conseguiam com o trabalho, diziam que era para seu filho, a razão da vida deles. O menino só que estudava quieto no quarto era a razão da vida de duas pessoas. Carregará isso consigo pela eternidade.
A tarde passou suavemente, nem se deu conta das horas, elas não faziam muito sentido mesmo. Ouviu a porta da sala se abrir, eram seus pais. Mas continuou em seu quarto, ia descer depois, estava deitado em sua cama, era merecedor de um descanso, havia passado a tarde lendo, resolvendo exercícios, escrevendo. Os professores estavam inspirados naquele semestre.
Ouvia uma música bem agitada para relaxar, mas mesmo com o volume relativamente alto deu para ouvir uma discussão. Mais uma vez teria que presenciar aquela patética ladainha de sempre.
Seu pai reclamava do cansaço, culpava sua mãe por coisas que muitas vezes ela não tinha nem a mínima noção do que se tratava, reclamava da bagunça, do ar, da vida.
Sua mãe pedia por mais atenção, por mais calma, por mais diálogo, suplicava por um olhar, sofria por não ser notada, trabalhava tanto quanto seu marido, sempre o ajudou, abdicou de tanta coisa pela sua família, mas sofria por aqueles momentos incompreensíveis. Não dava para ela entender o porquê da casa de sua família se transformar num local tão desagradável, com aquele clima tão severo e sufocante. Chorou.
O menino já conhecia aquela história de outros carnavais. Amava seus pais. Eles sempre fizeram de um tudo para criá-lo da melhor maneira possível, se erraram foi tentando acertar e ele compreendia isso com perfeição. Só desejava que seus pais olhassem um pouco para os lados, observassem que nada que eles faziam valia a pena se eles não estivessem bem. Era aquele o sonho que eles realizaram? Aquilo era a família que eles queriam? O que eles estavam fazendo?
Dormiu no embalo de uma discussão.
A noite estava incrivelmente agradável, fresca. O sono era inevitável, mesmo naquela situação. Cobriu-se e abraçou um travesseiro.
Não demorou muito estava numa cidade. Parecia mais velho. Bem mais velho, no mínimo uns 15 anos havia se passado. Abria a porta de uma casa simples. Vestia o uniforme de uma indústria de calçados. Ao entrar na casa uma mulher lhe dava um beijo e um abraço e o perguntava se no trabalho havia corrido tudo bem. Ficou quieto. A mulher não quis forçar uma comunicação, parecia que já estava acostumada com aquela reação. Ele baixou a cabeça e ficou sem entender tudo aquilo. Andou pela casa. Viu um berço, assustou-se ainda mais. Havia uma pequena menina lá dentro, ela sorriu quando o viu. O tempo no sonho corria. A noite havia passado e o dia já havia chegado. Involuntariamente foi até a fábrica. Trabalhou, no fim do dia recebeu a notícia que o salário atrasaria. Foi embora. Chegou em casa novamente, dessa vez a mulher não lhe pareceu tão receptiva. Mostrou-lhe contas e falou que o que ela ganhava não era o suficiente, chorou, parecia que sem querer. Sua voz ficou sussurrada, falava enquanto algumas lágrimas incontroláveis caia que não entendia o que estava havendo com eles, queria entender por que ele não conversava com ela, disse que o ajudaria, casaram para compartilhar não para culpar ou apontar erros, mas que tudo o que haviam planejado parecia cada vez mais distante. Tentou pronunciar alguma coisa para confortá-la, mas antes que isso fosse possível escutou um choro de criança, foi até ela. Com a criança no colo olhou para traz, viu a mulher sentada como se nada daquilo que ela estava vivendo era coerente com seus planos. Olhou para a pequena menina e viu nela a razão da vida de ambos, dele e daquela mulher. Era como se olhasse para aquele pequeno ser como seus pais olhavam para ele. Deitou a menina e foi até a mulher, quando a abraçou, ele acordou.
Colocou a mão sobre a sua cabeça. Foi tão nítido. Abriu os olhos e viu que o sol ainda não havia se mostrado. Sentou na cama. Procurava paz, procurava sossego na sua mente, não encontrava. Tudo, tudo era muito intrigante.
Foi até a cozinha e lá ficou sentado, olhando e tentado achar coerência naquilo. Eram 3 horas. Não se importou. Aquele sonho foi o reflexo da vida de seus pais, era a continuação de tudo na sua própria história. Tudo o que ele um dia imaginou para seu futuro, nada estava no sonho, mas o sonho parecia ser o seu futuro. Era tudo tão previsível que ficou triste, não queria aquilo, aquilo não era seu objetivo de vida, talvez aquele objetivo de vida não era o de ninguém, mas a frustração daqueles personagens o atordoavam. Aquela mulher sofria como a sua mãe. As horas passavam. Sua mãe chegou na cozinha para preparar o café.
Pulou de susto quando o viu. Viu que ele chorava. Sentou ao seu lado e perguntou o que estava sentido, se estava passando mal. Ele falou que não queria ser única razão para a vida dela, falou que o seu sofrimento respingava nele, naquela casa, no seu pai, falou que se sentia mal por não ter o poder de fazê-los felizes, a vida nem sempre é família, há o individual, o prazer único, disse aos prantos que ninguém é a vida de ninguém, ninguém pode viver por ninguém, pois não há continuidade, pessoas são finitas e que colocar sobre os ombros de um filho a razão do seu viver era podá-lo e impedir a si mesmo de correr atrás do que lhe faz bem.
Ao terminar seu desabafo viu que seu pai estava escutando o que falava. Sentaram os três. Choraram os três. Enxergaram-se. Calaram.
(Jéssica.)
Quando chegara em casa no dia anterior estava tudo como devia estar. Não havia ninguém, seus pais estavam trabalhando e naquele dia a moça que faxinava não tinha ido, certamente era sua folga. Tinha vários trabalhos escolares para serem feitos. Entrou em seu quarto e começou a realizá-los, era sempre muito caprichoso com suas coisas, escola ou notas nunca foi problema. Pegou alguma coisa para comer na geladeira e foi para seu quarto.
Era um menino só. Não tinha irmãos. Pai e mãe sempre trabalhando, tudo que eles conseguiam com o trabalho, diziam que era para seu filho, a razão da vida deles. O menino só que estudava quieto no quarto era a razão da vida de duas pessoas. Carregará isso consigo pela eternidade.
A tarde passou suavemente, nem se deu conta das horas, elas não faziam muito sentido mesmo. Ouviu a porta da sala se abrir, eram seus pais. Mas continuou em seu quarto, ia descer depois, estava deitado em sua cama, era merecedor de um descanso, havia passado a tarde lendo, resolvendo exercícios, escrevendo. Os professores estavam inspirados naquele semestre.
Ouvia uma música bem agitada para relaxar, mas mesmo com o volume relativamente alto deu para ouvir uma discussão. Mais uma vez teria que presenciar aquela patética ladainha de sempre.
Seu pai reclamava do cansaço, culpava sua mãe por coisas que muitas vezes ela não tinha nem a mínima noção do que se tratava, reclamava da bagunça, do ar, da vida.
Sua mãe pedia por mais atenção, por mais calma, por mais diálogo, suplicava por um olhar, sofria por não ser notada, trabalhava tanto quanto seu marido, sempre o ajudou, abdicou de tanta coisa pela sua família, mas sofria por aqueles momentos incompreensíveis. Não dava para ela entender o porquê da casa de sua família se transformar num local tão desagradável, com aquele clima tão severo e sufocante. Chorou.
O menino já conhecia aquela história de outros carnavais. Amava seus pais. Eles sempre fizeram de um tudo para criá-lo da melhor maneira possível, se erraram foi tentando acertar e ele compreendia isso com perfeição. Só desejava que seus pais olhassem um pouco para os lados, observassem que nada que eles faziam valia a pena se eles não estivessem bem. Era aquele o sonho que eles realizaram? Aquilo era a família que eles queriam? O que eles estavam fazendo?
Dormiu no embalo de uma discussão.
A noite estava incrivelmente agradável, fresca. O sono era inevitável, mesmo naquela situação. Cobriu-se e abraçou um travesseiro.
Não demorou muito estava numa cidade. Parecia mais velho. Bem mais velho, no mínimo uns 15 anos havia se passado. Abria a porta de uma casa simples. Vestia o uniforme de uma indústria de calçados. Ao entrar na casa uma mulher lhe dava um beijo e um abraço e o perguntava se no trabalho havia corrido tudo bem. Ficou quieto. A mulher não quis forçar uma comunicação, parecia que já estava acostumada com aquela reação. Ele baixou a cabeça e ficou sem entender tudo aquilo. Andou pela casa. Viu um berço, assustou-se ainda mais. Havia uma pequena menina lá dentro, ela sorriu quando o viu. O tempo no sonho corria. A noite havia passado e o dia já havia chegado. Involuntariamente foi até a fábrica. Trabalhou, no fim do dia recebeu a notícia que o salário atrasaria. Foi embora. Chegou em casa novamente, dessa vez a mulher não lhe pareceu tão receptiva. Mostrou-lhe contas e falou que o que ela ganhava não era o suficiente, chorou, parecia que sem querer. Sua voz ficou sussurrada, falava enquanto algumas lágrimas incontroláveis caia que não entendia o que estava havendo com eles, queria entender por que ele não conversava com ela, disse que o ajudaria, casaram para compartilhar não para culpar ou apontar erros, mas que tudo o que haviam planejado parecia cada vez mais distante. Tentou pronunciar alguma coisa para confortá-la, mas antes que isso fosse possível escutou um choro de criança, foi até ela. Com a criança no colo olhou para traz, viu a mulher sentada como se nada daquilo que ela estava vivendo era coerente com seus planos. Olhou para a pequena menina e viu nela a razão da vida de ambos, dele e daquela mulher. Era como se olhasse para aquele pequeno ser como seus pais olhavam para ele. Deitou a menina e foi até a mulher, quando a abraçou, ele acordou.
Colocou a mão sobre a sua cabeça. Foi tão nítido. Abriu os olhos e viu que o sol ainda não havia se mostrado. Sentou na cama. Procurava paz, procurava sossego na sua mente, não encontrava. Tudo, tudo era muito intrigante.
Foi até a cozinha e lá ficou sentado, olhando e tentado achar coerência naquilo. Eram 3 horas. Não se importou. Aquele sonho foi o reflexo da vida de seus pais, era a continuação de tudo na sua própria história. Tudo o que ele um dia imaginou para seu futuro, nada estava no sonho, mas o sonho parecia ser o seu futuro. Era tudo tão previsível que ficou triste, não queria aquilo, aquilo não era seu objetivo de vida, talvez aquele objetivo de vida não era o de ninguém, mas a frustração daqueles personagens o atordoavam. Aquela mulher sofria como a sua mãe. As horas passavam. Sua mãe chegou na cozinha para preparar o café.
Pulou de susto quando o viu. Viu que ele chorava. Sentou ao seu lado e perguntou o que estava sentido, se estava passando mal. Ele falou que não queria ser única razão para a vida dela, falou que o seu sofrimento respingava nele, naquela casa, no seu pai, falou que se sentia mal por não ter o poder de fazê-los felizes, a vida nem sempre é família, há o individual, o prazer único, disse aos prantos que ninguém é a vida de ninguém, ninguém pode viver por ninguém, pois não há continuidade, pessoas são finitas e que colocar sobre os ombros de um filho a razão do seu viver era podá-lo e impedir a si mesmo de correr atrás do que lhe faz bem.
Ao terminar seu desabafo viu que seu pai estava escutando o que falava. Sentaram os três. Choraram os três. Enxergaram-se. Calaram.
(Jéssica.)

