domingo, 31 de maio de 2009

Razão do meu viver.

No sonho daquele menino aconteceu coisas que ele não compreendeu. Havia tantos fatos que sua mente não conseguia absorver, entretanto ele não apagou de sua mente nem um segundo daquela noite imaginária.
Quando chegara em casa no dia anterior estava tudo como devia estar. Não havia ninguém, seus pais estavam trabalhando e naquele dia a moça que faxinava não tinha ido, certamente era sua folga. Tinha vários trabalhos escolares para serem feitos. Entrou em seu quarto e começou a realizá-los, era sempre muito caprichoso com suas coisas, escola ou notas nunca foi problema. Pegou alguma coisa para comer na geladeira e foi para seu quarto.
Era um menino só. Não tinha irmãos. Pai e mãe sempre trabalhando, tudo que eles conseguiam com o trabalho, diziam que era para seu filho, a razão da vida deles. O menino só que estudava quieto no quarto era a razão da vida de duas pessoas. Carregará isso consigo pela eternidade.
A tarde passou suavemente, nem se deu conta das horas, elas não faziam muito sentido mesmo. Ouviu a porta da sala se abrir, eram seus pais. Mas continuou em seu quarto, ia descer depois, estava deitado em sua cama, era merecedor de um descanso, havia passado a tarde lendo, resolvendo exercícios, escrevendo. Os professores estavam inspirados naquele semestre.
Ouvia uma música bem agitada para relaxar, mas mesmo com o volume relativamente alto deu para ouvir uma discussão. Mais uma vez teria que presenciar aquela patética ladainha de sempre.
Seu pai reclamava do cansaço, culpava sua mãe por coisas que muitas vezes ela não tinha nem a mínima noção do que se tratava, reclamava da bagunça, do ar, da vida.
Sua mãe pedia por mais atenção, por mais calma, por mais diálogo, suplicava por um olhar, sofria por não ser notada, trabalhava tanto quanto seu marido, sempre o ajudou, abdicou de tanta coisa pela sua família, mas sofria por aqueles momentos incompreensíveis. Não dava para ela entender o porquê da casa de sua família se transformar num local tão desagradável, com aquele clima tão severo e sufocante. Chorou.
O menino já conhecia aquela história de outros carnavais. Amava seus pais. Eles sempre fizeram de um tudo para criá-lo da melhor maneira possível, se erraram foi tentando acertar e ele compreendia isso com perfeição. Só desejava que seus pais olhassem um pouco para os lados, observassem que nada que eles faziam valia a pena se eles não estivessem bem. Era aquele o sonho que eles realizaram? Aquilo era a família que eles queriam? O que eles estavam fazendo?
Dormiu no embalo de uma discussão.
A noite estava incrivelmente agradável, fresca. O sono era inevitável, mesmo naquela situação. Cobriu-se e abraçou um travesseiro.
Não demorou muito estava numa cidade. Parecia mais velho. Bem mais velho, no mínimo uns 15 anos havia se passado. Abria a porta de uma casa simples. Vestia o uniforme de uma indústria de calçados. Ao entrar na casa uma mulher lhe dava um beijo e um abraço e o perguntava se no trabalho havia corrido tudo bem. Ficou quieto. A mulher não quis forçar uma comunicação, parecia que já estava acostumada com aquela reação. Ele baixou a cabeça e ficou sem entender tudo aquilo. Andou pela casa. Viu um berço, assustou-se ainda mais. Havia uma pequena menina lá dentro, ela sorriu quando o viu. O tempo no sonho corria. A noite havia passado e o dia já havia chegado. Involuntariamente foi até a fábrica. Trabalhou, no fim do dia recebeu a notícia que o salário atrasaria. Foi embora. Chegou em casa novamente, dessa vez a mulher não lhe pareceu tão receptiva. Mostrou-lhe contas e falou que o que ela ganhava não era o suficiente, chorou, parecia que sem querer. Sua voz ficou sussurrada, falava enquanto algumas lágrimas incontroláveis caia que não entendia o que estava havendo com eles, queria entender por que ele não conversava com ela, disse que o ajudaria, casaram para compartilhar não para culpar ou apontar erros, mas que tudo o que haviam planejado parecia cada vez mais distante. Tentou pronunciar alguma coisa para confortá-la, mas antes que isso fosse possível escutou um choro de criança, foi até ela. Com a criança no colo olhou para traz, viu a mulher sentada como se nada daquilo que ela estava vivendo era coerente com seus planos. Olhou para a pequena menina e viu nela a razão da vida de ambos, dele e daquela mulher. Era como se olhasse para aquele pequeno ser como seus pais olhavam para ele. Deitou a menina e foi até a mulher, quando a abraçou, ele acordou.
Colocou a mão sobre a sua cabeça. Foi tão nítido. Abriu os olhos e viu que o sol ainda não havia se mostrado. Sentou na cama. Procurava paz, procurava sossego na sua mente, não encontrava. Tudo, tudo era muito intrigante.
Foi até a cozinha e lá ficou sentado, olhando e tentado achar coerência naquilo. Eram 3 horas. Não se importou. Aquele sonho foi o reflexo da vida de seus pais, era a continuação de tudo na sua própria história. Tudo o que ele um dia imaginou para seu futuro, nada estava no sonho, mas o sonho parecia ser o seu futuro. Era tudo tão previsível que ficou triste, não queria aquilo, aquilo não era seu objetivo de vida, talvez aquele objetivo de vida não era o de ninguém, mas a frustração daqueles personagens o atordoavam. Aquela mulher sofria como a sua mãe. As horas passavam. Sua mãe chegou na cozinha para preparar o café.
Pulou de susto quando o viu. Viu que ele chorava. Sentou ao seu lado e perguntou o que estava sentido, se estava passando mal. Ele falou que não queria ser única razão para a vida dela, falou que o seu sofrimento respingava nele, naquela casa, no seu pai, falou que se sentia mal por não ter o poder de fazê-los felizes, a vida nem sempre é família, há o individual, o prazer único, disse aos prantos que ninguém é a vida de ninguém, ninguém pode viver por ninguém, pois não há continuidade, pessoas são finitas e que colocar sobre os ombros de um filho a razão do seu viver era podá-lo e impedir a si mesmo de correr atrás do que lhe faz bem.
Ao terminar seu desabafo viu que seu pai estava escutando o que falava. Sentaram os três. Choraram os três. Enxergaram-se. Calaram.
(Jéssica.)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sem fim.


Um instante!
Parem. Beijem o chão. Peçam mais. Supliquem.
Cantem por um amor. Delirem com seus corpos. Ou com os dos outros.
Busquem por algo que não compreendam. Cansem.
Peço apenas que se enxerguem, não é difícil, tentem. Não se esqueçam, por favor, que tudo é apenas fruto da sua imaginação.
Olhem para parede, vejam como ela é estática. Analisem o que veem. O universo é fantástico. Eu diria até que não acredito nele. Você acredita? Você está sobre um planeta, que gira em torno de um troço bem grande e quente que chamamos de sol, o sol é uma estrela assim como outras trocentas existentes, e tudo isso está disposto. Surgiu do nada ou sempre existiu?
Estudem ciência, religião, história. Delirem com o desvendar de uma sequência. Tentem encontrar uma lógica em tudo ou em algo. Sintam-se um deus, alías foi você quem o criou (só para lembrar: tudo é fruto da sua imaginação).
Pulem. Façam uma revolução. Saiam gritando "aí" com a mão bumbum. Revoluções anarquistas estão modinhas demais. Formem uma turma incomum, criem uma ideologia: QUEREMOS SAIR CORRENDO PELADOS! AGORA! ESSE DIREITO É NOSSO! QUEM INVENTOU O PUDOR? PARA QUE ELE SERVE? HÁ FINALIDADE NISSO TUDO?
É assim imperará no planeta Terra algo sem fim. A plena sensação de liberdade. Um frescor sublime. Tudo amanhecerá com mais calma. Será mais suave. Contínuo. O fim não existirá, pois não o imaginaremos e como tudo é fruto da nossa imaginação, ele não existirá.
(Jéssica.)

domingo, 17 de maio de 2009

Pensa, penso. Caramba, estou viajando em pensamentos!

Escrevo aqui como se nada me controlasse, deixo fluir o que se passa na minha mente tão confusa, uma mente repleta de dúvidas. De fato são dúvidas, não sou uma pessoa bem resolvida mentalmente. Aliás, pessoas bem resolvidas, com uma mente muito concreta e cheia de verdades, me irritam profundamente.
Tenho sede. Tenho fome. Quero carne. Pessoas são tão instigantes, diria até que são legais, mas quando se analisa em massa nota-se que tudo é absurdamente previsível. Mas isso não vem ao caso. É difícil agradar pessoas. É difícil respeitá-las. É difícil compreendê-las em certos pontos. Falam uma coisa, agem de maneira oposta. Querem luxúria, mas saturam o sexo de tabus e dogmas incompreensíveis. Querem contar, mas guardam para si suas infâmias. Querem correr ao mar, mas recuam para não estragar o cabelo. Querem liberdade, mas se rendem a ignorância ou ao mísero medo ou a insignificante sensação de estabilidade. Estável...
Queria sair correndo pelada, mas sou mais uma no meio de tantas e tantos que sei lá. Desejam, mas não se saciam. O que me sacia? Não sei, não me saciei ainda. Quando me saciar ou minha paciência se extinguir deixo esse mundo, digamos que, um pouco menos gostoso. Sim, menos gostoso.
Há pessoas que embelezam esse mundo de uma forma tão supimpa que eu deixo um sorriso se estampar no meu rosto quando me lembro delas, sim, eu conheço pessoas belas. Beleza é fundamental. Encanta. Deslumbra. O que é beleza? Olho a minha volta, o que me chama atenção, o que é prioridade, quais minhas preferências (preferência é bem diferente de preconceito). Tenho sorte nesse aspecto. Aliás, colocando tudo numa balança, desconsiderando a margem de erro, eu sou uma pessoa que segundo os preceitos da nossa atual sociedade deveria ser estupendamente feliz. Mas é que reclamo de barriga cheia mesmo. A minha está cheia, mas e a dos outros? Não gosto de muita coisa que vejo. Que sinto. Que ouço. Seria hipocrisia? Tenho pai e mãe, dois irmãos, roupas, casa, cama, colchão, nada no quesito material me falta. Não sou plena. O tempo me angustia, convenção maldita. Moralismo me angustia, julgamentos malditos. Regras me angustiam, limites malditos (quando a regra tende a 0, o mundo tende a liberdade de expressão, de amor, de desejos, de sonhos, mas essa função está se mostrando descontínua, onde regra = 0 é utopia). Muitas coisas ditas ilegais fazem meus olhos brilharem, ilegalidade maldita.
Assim meus pensamentos "deslizam como quiabo na boca de véia banguela", imagens se formam na minha mente, extravazo na forma de gargalhadas ou num choro solitário em um local onde eu esteja invisível aos olhos daqueles que jogam pedra como se a infeliz marginal que não merecesse respeito fosse eu. Talvez seja. Mas apontar é cômodo. Como é.
Assim as coisas se desenrolam ou se enrolam mais ainda. É. Corram. Gripe das Capivaras radioativas está ao seu lado. Búh.
(Jéssica.)


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Não sou.

Não me dei conta de como as nuvens...
Não percebi que a flor...
Não me toquei que a brisa do mar...
Não enxerguei o quão...

Quanto mais queriam me mostrar algo estupendo
Mais eu via ilusões.
Quanto mais me mostravam horrores
Mais eu via inerências.

Se me perguntar o que eu quero
Responderei: querer o que posso ter.
Infelizmente não me contento com o que posso,
Logo presa estou.

Presa! Presa de quem?
Daqueles que vivem no mundo que enxergam,
Entretanto não vejo o que eles veem. Não sou.
Metáforas me cansam. Eufemismos então...

(Jéssica.)