Não
sei ao certo o que me rodeia, não tenho muita paciência com os vizinhos,
conheço mulambamente meu bairro, fujo dos conhecidos e dos colegas. Acredito
que esse comportamento seja apenas parte da minha personalidade, não associo
isso a algum tipo de sociopatia. Não alimento desejos de ser protagonista de
massacres terroristas, creio que nenhuma ideologia me prenderia a tal ponto,
isso não faz parte dos meus planos. Só que, na minha solidão, ficaria
alegrezinha com o massacre de quem massacra sob o véu da moralidade.
Ora acho que a hipocrisia é natural
e espontânea e inevitável e salutar, ora quero um mundo tão honesto que beire a
escrotidão gratuita. A educação no nosso tempo é tipo uma divindade, pessoas
educadas são cultuadas. Sinto falta de pessoas que vomitem sinceridade.
A falácia da estabilidade me move,
nos movimenta. Cogitar o fim iminente é decretar falência às instituições
éticas e morais; sem esperar o amanhã com suas trágicas consequências, seríamos
ainda mais imediatistas, loucos e insanos. A inexistência da culpa não faz
sentido, somos culpados desde os primórdios. Viver uma "estabilidade"
é ter o dom de fazer vista grossa. Por isso não conheço os meus arredores,
teria que me fazer de cega mais do que acredito que posso. Logo eu que abomino
ignorância. A burrice eu perdoo, ser leigo em algo não é opção, é apenas uma
consequência do determinismo: raça, meio e momento ditando quem você é.
Ignorância, na minha humilde concepção, é o ato de ignorar, fingir que não viu,
não ouviu, não sentiu, não degustou. Ignorância judia do meu bom humor. É
triste.
Só que nesta história, tudo fica
desconexo. Se não conheço a vizinhança, nada posso dizer sobre o meu sistema,
já que não estou isolada. Estou imersa em um monte de tranqueira. Por mais que
não queira, mais cedo ou mais tarde, me mesclo a tudo e me torno uma hipócrita
ignorante. Não sou tão distinta, embora a educação nos ensine a lidar e
respeitar as diferenças, são as semelhanças que me assustam.
(Jéssica.)