terça-feira, 11 de setembro de 2012

Não tem desconto, é de graça.


Há uma porta estreita que muitos querem transpassar. Muitos adorariam poder alargá-la, mas esta passagem não permite reformas: é eterna e imutável, assim como quem a criou. Do lado de fora, inúmeras especulações de como é seu interior e quem ali habita ou habitará; imagens que acalentam o coração e a mente surgem. A miragem da perfeição livre da probabilidade do ressurgimento da iniquidade.
Existiu, em uma terra distante, um povo que quis alcançar a maçaneta dessa porta construindo uma gigantesca torre. Esse povo era muito obstinado, não demoraria e seriam capazes de tudo o que ousassem querer. Eles se entendiam, tinham o mesmo objetivo, falavam todos a mesma língua. Contudo a passagem não era para ser conquistada dessa forma. Eis que a Torre de Babel pariu a Babilônia e quem almeja passar pela bela porta ainda espera que quem lhes confundiu a língua também grite em alto e bom som: "Caiu! Caiu a grande Babilônia!". Quiçá, não há de demorar, toda confusão espiritual se dissipará. O angustiante é que no lado de fora da porta a confusão se diluí em um mar de fogo e enxofre e no lado de dentro em uma delicada e sublime paz.
Essa paz é surreal para meros mortais, inexplicável. A sabedoria desse mundo não é capaz de dissertar claramente sobre a paz e a vida eterna: é enfadonho e tedioso, é repleto de misticismo e alegorias. Sente-se mais à vontade para falar de tristezas e mazelas, a desgraça instiga a audiência. Há muitos medos e anseios pessoais. É difícil, é muito difícil compreender o que não se vê, o que não se toca, o que não se cheira, o que não se prova com os sentidos deturpados pela queda humana. O príncipe desse mundo faz questão da cegueira, da alienação.
Enquanto isso, lá de dentro da porta, há um clamor genuíno: "entrem, é de graça". Só que a malícia leva a incredulidade; quando a oferta é alta, o santo logo desconfia. Muitos querem atravessar a porta, mas não há alma que mereça tamanha dádiva. Nenhuma obra, nenhuma estrada, nenhuma torre, nenhuma indulgência, nenhuma invenção humana conduz a enfeitada e bela Nova Jerusalém. Bons frutos e boas obras para a tola sabedoria mundana pode não significar grande coisa sob a perspectiva divina. Paradoxos que atormentam.
"Entrem, é de graça. É dom gratuito, não está sujeito a inflação. Não há dinheiro que pague, não há mérito próprio, não há merecimento. Entrem, é de graça." A porta ainda está aberta, embora seja estreita. Talvez o mais sensato seja agir e pensar "magro", afinar nossos desejos e buscar passar por essa santa porta da graça. Mas há sensatez em um coração humano tão sujeito à falhas?
(Jéssica.)