Cabe a esse fluxo contínuo de indagações fazer com que este jogo de palavras não chegue ao fim brevemente. Preciso esvair-me. Estou densa de pensamentos e desesperos e, por não saber conversar, sinto-me debilitada. Contra a parede dou alguns murros que só fazem com que a tristeza torne-se grande demais para suportar.
O sono podia durar mais, a noite estender-se, o sol ser brando, as lágrimas frias. O calor me despe, contudo me irrita, como se me privasse do contato que tanto suplico. Tenho narrado situações que protagonizo, mas estou sempre ausente. A história no fim fica sem sua personagem e todos sabem que o efeito sem a causa não existe. Um rascunho sem rabiscos, uma analogia sem contexto. Um absurdo herético.
Sinto-me sempre metade, pergunto-me como usufruir do todo que não sou capaz de alcançar. Em cada uma de minhas lamentações há tanta ausência que soa como se fosse irreal. Seria uma caridade sem benevolência, religião sem fé, ciência sem dúvida, vida sem morte.
Em meus pensamentos uma oração se sobressai: "os meus dias são sempre iguais". Este pensamento é supérfluo, o que me instiga a buscar pela minha profundeza, digamos que procurando pelo paraíso acabei por encontrar o demônio em mim. Sou uma mescla de horrores, pecado e desdém. O que quero parecer faz de mim pior do que realmente sou; sou metade e a metade que aparento ser não é a metade que de fato sou.
Tenho, há muito tempo, seguido o fluxo da correnteza apostando na lógica de que quem nada contra acaba por morrer afogado, vencido pelo cansaço. Hoje o medo ganha espaço e agora, que tive vontade de nadar um pouco, meus braços e pernas não respondem. Nunca subestimei o poder psicológico sobre meu físico, nunca subestimei o poder do tempo sobre mim. Nem ao menos sei se a metade que sou é a mesma que julgava ser. Não são minhas máscaras, são minhas ignorâncias. Se bem que uma fantasia pode fazer com que você evite a morte de alguém, uma pequena distorção mirabolante no espaço-tempo.
(Jéssica.)
