domingo, 24 de abril de 2011

Bozó.

Enquanto eles jogavam bozó do lado de fora da casa, os olhos marejados imploravam pelo toque apertado. Ansiava que talvez o calor dos corpos significasse algo além dos cinco sentidos. É a utopia daquilo que é externo e que possui a capacidade de confundir o elo entre o significante e o significado, o mundo das ideias e o mundo concreto.
Tentar ampliar o léxico de modo a suprir as necessidades urgentíssimas de uma comunicação em declive acentuado é estratosfericamente mais foderoso do que se pode imaginar. É possível justificar o silêncio pela ausência de fonemas capazes de expressar com considerável grau de pureza o que se passa. É de bom tom aceitar essa justificativa, é demasiadamente indelicado querer se afundar em terreno raso.
Alguém lá fora grita: “general”. Um vencedor se aproxima. Irá se apoderar do prêmio, do pódio, do respeito. Enquanto isso, do lado de dentro, um empurrão de alguém contra a parede vermelha, superfície áspera arranha as costas nuas, mas quem liga para a vermelhidão quando o que se busca nem nome têm. Um lampejo causado por mais um choque, dessa vez contra o interruptor, a luz irradia e se olharam. Mais um cataclismo linguístico: que nome se dá quando se olha os olhos de uma pessoa completamente nua a sua frente a ofegar calmamente em uma doce sincronia. O Aurélio diz - "tesão: desejo sexual". Há mais coisas no mundo das ideias que apenas sexo nesse momento. Ou seria apenas, de fato, macho e fêmea a procriar ou a delirar sobre os prazeres da carne. Os prazeres de se acordar com o rosto na nuca daquela pessoa, inalando seu cheiro, o longínquo vestígio de seu perfume agora misturado com outros aromas. É só sexo mesmo, não há muito o que se discutir. Contudo, para seres cuja dicotomia varia seguindo uma autofunção senoidal a dançar sobre o espaço-tempo, é complexo definir o que é bom apenas como ele o é perante os sentidos. Sentidos humanos, fadados a um broxante limite. Para que simplificar se há como complicar, enfeitar, maquiar, colocar lantejoulas.
Do lado de fora um ganhador consagrado. Risos e mais risos, regado com uma boa cerveja gelada. Levedo faz um bem tremendo ao intestino; tomar cerveja regularmente poderá salvar vidas. Mas é deveras melhor manter a lucidez "intacta", mas colabore com seu intestino, ele clama por levedo. Mas lá no interior da casa não há mais o que se descrever; transformar esse conto numa prosa erótica a essa altura do campeonato seria uma ofensa ao casal que se entrelaça enquanto seus amigos se embebedam jogando bozó. Não seria válido e digno.
(Jéssica.)