sábado, 12 de março de 2011

Alegoria da Caverna.

Era uma doce ideia
Vivia em alguma caverna a queimar
Ardia em brasa
Até que encontrou o denotativo
E tornou-se palavra.

Significante e significado são miscíveis
Mas a igualdade entre eles se perde com o pensar
Pensa o que fala ou fala o que pensa?
A recíproca nem sempre joga honestamente
Principalmente no mundo das doces ideias.
(Jéssica.)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Meu 'a posteriori'.

Sorrateiramente peço perdão pelas minhas injúrias difamadas aos sete ventos. Não sabia o que dizia, mas o dizia incansavelmente e muitas das vezes o ideal se alterou, digamos que nenhuma ideologia me prendeu por muito tempo. Não enraizei preceitos. Hoje noto que vivi a deus dará, contudo não vivi intensamente. Intensidade passou longe em boa parte dos meus dias. Raros foram os momentos em que me permitir tocar o limite e, quando o toquei, minhas pernas tremeram e alcancei o mais puro êxtase. Quando sonho enquanto não durmo tenho flashbacks desses momentos, como se tocar o extremo fosse uma droga alucinógena, onde o delírio retorna mesmo na dita lucidez.
Cantando uma música qualquer vou escrevendo essas palavras que tem como objetivo delimitar como será o ‘a posteriori’ da minha famigerada vida. Desejo com toda e a mais absoluta sinceridade que esqueçam de meu epitáfio. O dia em que nasci e o dia em que eu não mais existir não dizem nada do que pude viver, tampouco meu nome revelará algo. Não marquei uma época, não fui um gigante, não fui heroi de uma pátria, não fui célebre e, para aqueles poucos, que de mim extraíram algo de bom ou de ruim, quero apenas um ‘dar de ombros’. Fui e sou uma passagem e como tal tenho que voltar, retornarei ao pó, ao barro, ao princípio desconhecido, ou melhor, ao princípio esquecido pelos habitantes de Urântia . Que o passar de no máximo uma geração faça a minha estádia pelo mundo ser sequer lamentada. Sem um epitáfio isso ficará muito mais simples.
Nesse exato momento meu corpo pálido e esvaído clama por misericórdia. Misericórdia não das forças metafísicas, pois não tive oportunidade de senti-las em vida, mas a misericórdia daqueles que hoje me rodeiam. Não se revoltem com a minha ausência, que as lágrimas que por ventura surgirem, sequem rapidamente. Que a dança do meu funeral seja o menos melancólica possível.
Contudo, antes de pensar no caixão, pensemos nas dúvidas que podem surgir na iminência do grande momento de qualquer vida: o upa da morte. Tudo o que de minha matéria puder ser aproveitado, que seja. Doem tudo. Para mim não será mais nem um pouco necessário, se é que me entendem. Não precisarei mais de meu coração, não mais de meu pulmão. Meu fígado tão utilizado em vida não terá mais motivos para permanecer comigo (com a morte os porres se tornam um tanto quanto improváveis). Minha pele se ainda tiver tenra e passível de ser utilizada, que outro ser faça bom uso dela, quero que a toquem enquanto o calor da circulação sanguínea existir. Resumindo, almejo que no meu caixão tenha nada, e se, por um acaso do destino, sobre algo: queimem. Não creio em ressurreição e mesmo se retornar a esse mundo, que seja num corpinho diferente. A mesmice já me saturou em vida. Suplico que descartem ou deem um fim útil aquilo que não me fará falta a sete palmos do chão.
Se for necessária a minha cremação, por favor, não confundam as minhas cinzas com cocaína e cheirem. Eu não dou barato e nem potencializo o efeito da coca. Essas coisas ficam apenas para os ídolos do rock. Fui do rock’n’roll, mas não abracei a rebeldia. Uma pena, um dos meus arrependimentos. Já citei que não vivi intensamente, portanto, minhas revoluções pessoais ficaram restritas aos meus soluços discretos em algum cômodo que não abrigasse outro ser humano e as minhas reflexões eram postas em prática na minha cama enquanto o sono não vinha. Mas eis que o sono eterno veio. ZzzzZZZzzzz...
(Jéssica.)