Olhar no espelho e chorar incansavelmente até não lembrar mais por que chorava. Nos olhos um borrado contorno azul de quem a poucas horas atrás ria. Não vale a pena contar por que ria. Drama dá muito mais audiência.
Derreter-se em lágrimas no banheiro pode soar covarde, mas é timidez. Não saber expressar tristeza dói, pois não se consegue dividi-la. Mas é explicável tal fato: é mais prazeroso compartilhar ou fazer surgir um sorriso, mesmo que se esteja querendo apenas encostar no ombro alheio e ouvir seu silêncio.
E no banheiro é tão mais simples, há um espelho e nele nota-se o reflexo sorumbático de seu próprio ser e ali, naquele exato momento, longe dos olhos de todos enxerga-se apenas o seu enchendo-se pouco a pouco, os lábios tremendo silenciosamente para que ninguém em casa ouça, as mãos apoiando-se sobre a pia gélida para sustentar seu corpo; dessa forma o choro chega e os olhos vermelhos aliviam a angústia, o medo, o ira, a inveja, o amor, o desconsolo, a saudade ou quiçá uma simplória tristeza.
Há prós nessa maneira de sofrer, embora pareça uma mera síndrome do auto-flagelo gótico. A sós as lágrimas parecem mais livres, não há ninguém tentando enxugá-las, assim elas duram mais tempo, assim são mais puras e sinceras, assim elas demonstram o que no âmago deseja-se. Talvez nem se deseje, talvez seja saudade daqueles sonhos bonitos que a imaginação cria, onde dentro de sua surreal realidade, as peripécias mundanas são mais cor-de-rosa e cujas consequências são doces e suaves.
Após a analise de tais quesitos os olhos cheios de lágrimas fecham-se, estas escorrem quentes pelas bochechas, e finalmente secam para num outro momento retornarem.
(Jéssica.)
(Jéssica.)