domingo, 29 de março de 2009

Anseio.


Vontades bizonhas.
Carne.
Desejos.
Não há de haver censura.
O corpo expressa vontades.
Viver é querer.
Querer o quê?
Manter-se querendo.
Há quem não queira?
Prazer.
Não tema.
É belo, até mesmo o esdrúxulo.
(Jéssica.)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Você é um número.

Se você não tomar cuidado vira um número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento - Tudo é número. Se é dos que abrem crediário, para eles você também é um número. Se tem propriedades, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem número da cadeira. É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas e Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral. Se você é comerciante, seu alvará de Localização o classifica também. Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe um número de batismo. No Registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também. Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. A minha amiga contou que no Alto do Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha com o número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pode ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados. Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica. E Deus não é número. Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao Sol. Meu número íntimo é 9. Só 8. Só 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter um número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que o amor não tem número. Ou tem?
(Clarice Lispector.)


Onde será que fica meu código de barras? Pois do jeito que as coisas estão, somos apenas mercadorias, tudo tem seu preço, tudo tem seu prazo de validade. Será que ainda somos humanos? Será que ainda temos coração? Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir venderrrrrrrrrrrrrrr? Ops...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Amizade.

Amigo. Aquela pessoa que não tem nenhum dever estabelecido. Não há o que se cobrar dele. Ele não é seu pai. Ele não é sua mãe. Não é seu irmão ou irmã. Muito menos primo, tio, padrinho, avó... Mas se cobra do pobre infeliz. Cobra-se tolerância, paciência, ternura, afeto, confiança. O que se dá em troca?
Amigo. Talvez se mude para outra dimensão, amanhã não esteja mais do seu lado. Talvez planeje algo no qual você não está incluso. Talvez simplesmente suma. Talvez você não se esqueça dele jamais.
Amigo. Ele lhe oferece algo que nem seus pais, em toda sua existência, seria capaz de um dia lhe oferecer. Seus pais não ouviria uma infâmia sua sem reprimi-lo. Um amigo certamente iria ouvir, ouvir de fato, e caso você permita ele lhe daria um afago e posteriormente um conselho ou talvez incentivá-lo na infâmia. Quem disse que não há delitos maravilhosos? Delitos que deveriam ser mais praticados.
Amigo. Alguns passam, nem deixam marcas, mas nem por isso não foram amigos. Não se lembra daquele mauricinho ou patricinha que andava contigo? Vocês se divertiam, mas por infelicidade do destino acabou mudando de colégio. Nunca mais se falaram mesmo morando na mesma cidade, talvez no mesmo bairro.
Amigo. Aquele que senta ao seu lado e mesmo você estando com uma dor de cabeça desgraçada, você acaba puxando assunto com ele. Falam sobre peripécias. Falam sobre amores. Falam sobre futilidades. Falam sobre sexo. Falam sobre demências. Falam sobre indolências. Falam sobre medos. Falam sobre o que farão amanhã. Falam sobre futuro. Falam sobre medo. Simplesmente simples. Qual a finalidade de se complicar as coisas?
Amigo. Logicamente, erra. Faz cada besteira. Magoa. Mágoas que, às vezes, não serão esquecidas. Indicam o fim. Um fim que não faz as lembranças sumirem. Nem as boas. Muito menos as ruins. Amizades que muitas vezes por ignorância é posta de lado, por ser muito mais fácil julgar do que ouvir motivos e razões. O desprezo é mais cômodo que a tentativa de compreensão. Amigos são eternos. Aqueles esquecidos não foram amigos, foram apenas colegas, conhecidos, não amigos. Amizade é a mais clara prova de amor. Amizade é muito mais do que preceitos, preconceitos, convenções. A amizade é simples. De tão simples ela não pede nada em troca. É tudo um conjunto de consequências. Pode ter um começo estabelecido: aquela festa, o primeiro dia de aula no colégio novo, a república, o puteiro, o esbarro no corredor da livraria, o cinema. Entretanto o fim? Fim não há. Não na mente de quem carrega um bom amigo. Rasga-se a certidão de casamento. Mas a gratidão por um amigo não é rasgada. São coisas tão simplórias numa realidade tão conturbada.
"Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito". Seria mais lógico guardar na memória, mas as pessoas gostam de analogias e metáforas e catacreses e anáforas e eufemismos e pleonasmos e anacolutos...Se você não sabe o que essas palavras significam, não surte. Me liga amanhã que a gente conversa e quem sabe não se tornamos amigos, hein? Se bem que é mais provável que você tenha medo de mim, mas se você tiver é porque não é uma pessoa interessante e pessoas interessantes se interessam por coisas bizarras e pessoas interessantes são raras assim como um amigo. Pense nisso.
(Jéssica.)